A sensação que tenho é de estar vomitando minhas próprias omoplatas, em um auto-parto interminável e doloroso, repleto de um sangue que eu já não sei mais se corre vindo de minhas veias ou se é apenas um líquido viscoso que sai dos ossos partidos, tudo misturado e diluído no chão diante dos meus olhos, e a tonteira é tão grande que não sei se me aproximo ou se me afasto do solo, nos instantes em que acho que vou desfalecer, e sobretudo quando eu tento pensar.
Nos dias seguintes sempre depois também a experiência fétida de ter de limpar tudo, lavar uma consciência que se acostumou suja, não devido à todas as circunstâncias, mas porque o corpo pode carregar um peso enorme de culpa muitas vezes maior do que o tanto que a mente pode suportar, e andar por aí com uma responsabilidade medonha de ser inconseqüente sempre, nádegas de fora ao menor sinal de perigo, e a crença de que eternamente me salvarei pelo que carrego nos olhos e o tanto que chamo antenção com meus lábios.
Se eles mentem, minhas sobrancelhas tremem, e minhas omoplatas começam de novo a se auto-parir, mal termino a frase e já estou soltando uma faísca de osso, a garganta já cortada um pouco faz pular junto um filete de sangue, e são seletas as pessoas que permanecem ao meu lado seguindo tedioso espetáculo.
Vomito tudo, e meus ombros não tem mais então, nenhuma estrutura. Passo a andar com a cabeça pendida para baixo, e dói demais tentar virar o rosto para encarar o mundo. É necessário então puxar para cima os ossos da bacia, anulando assim a minha coluna, para poder ter uma face outra vez. Ou seja, para ser alguém outra vez só mesmo sendo uma anã auto-parida, dona de um aleijão tão particular que nem eu mesma posso olhar para mim. Enxergo apenas a poça de sangue e ossos e aprendo: sim, dói mesmo muito, demais, ter de trazer o que há de dentro para fora nos instantes em que o mundo nos testa para a vida.
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