Minha foto
"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

E "o texto mais estranho que já escrevi na vida" volta, atendendo a pedidos.


E foi que ele não ia ser deus. Apenas mais uma nova conquista, pensou Giselle, tentando retirar do fundo de sua bunda celulitada alguma possível esperança de auto-estima tardia, vestindo por baixo da roupa uma calcinha muito sensual. Mas na verdade não, ele não seria apenas mais uma nova conquista, há tempos ela não conquistava ninguém, na verdade. Ele seria apenas a última conquista do ano, um salva vidas de reveillon, como ela preferia dizer ou gostava de imaginar.
Vestiu a saia vermelha de bolinhas. Cheia de uma presença de espírito duvidosa que as altas doses de vinho antes de sair sempre a proporcionavam. E foi. E ela ia se repetindo:

"Eu sou alguém que não acredita nessas coisas."

Chegou. Ele achou que ela seria menos importante e vestiu-se mal para o encontro. Duas rodadas de chopp depois e Giselle já pensava em como escapar do segundo dia sem causar grandes constrangimentos. Mas ah, estava a tanto tempo sem ir pra cama com um desconhecido que preferiu esperar. "Não existe isso de príncipe encantado", ela ia se repetindo. E ele ia provando cada vez mais, a cada frase terrivelmente planejada, que de fato se existirem príncipes encantados ele passou um tanto longe da lista. Coitado, pobre homem. Houve um esforço até verdadeiramente encantador da parte dele em se levantar todas as 369 vezes em que Giselle inventou uma saída estratégica para o banheiro fumar, mas nossa, nem toda a sua espontânea gentileza de homem que também estava a muito tempo sem transar estava ajudando. "Droga a janela do banheiro ser muito pequena", ela ia se repetindo.

- Eu não sou uma pessoa que acredita nessas coisas, sabe Franklin?
- Sei sim, Gi.
- Gi?
- Ah, desculpe a intimidade. (sorrindo com um pequenino pedaço de picanha agarradinho entre dois dentes da frente. Coitado, pobre homem)
- Desculpo não, sabe Diogo? (sorrindo pouco pra tentar esconder o hálito de quem acabou de fumar três cigarros numa visita absurdamente demorada ao banheiro)
- Diogo?
- Ah, desculpa a falta de intimidade. (soluça) Te confundi com meu primo.
- Hum. Ãh? Como assim... (rindo muito, muito sem graça. Coitado, pobre homem)
- É que ele sempre...
- Hum?
- Enfim, vamos mudar de assunto. Do quê que a gente tava falando mesmo antes?
- Ah, eu tava tentando te explicar porque acho que não tem nada a ver comparar o Lula com o Obama.
- Nossa, que interessante. (rindo muito, muito pouco e totalmente sem graça)
- Mas como eu tava te falando...
- Flávio, vamos para um motel continuar isso lá?
- !!!
- ?
- ...
- (vermelha!!!)
- (roxo, azul, lilás e verde - fluorescente)
- Sim?
- Sim. Mas meu nome não é Flávio, e nem Diogo.
- Ah. (cara de paisagem) Vamos?
-(cara de bunda, já se levantando pela 370ª vez)

E assim foi assim que ele não ia ser deus, mas ia salvar aquela noite calando-se. "Quanto menos intimidade melhor pra sumir amanhã", ela ia se repetindo. Mas foi que na manhã seguinte ela não foi embora correndo como planejado. E toda a preocupação em passar um reveillon de novo sozinha? fumando até competir ao prêmio de caso de enfisema mais rápido do mundo? E foi que ele foi ficando, ficando, e tornando-se deus. Mas ela não acreditava ainda que ela acreditasse nessas coisas. Dois anos depois ele um dia perguntou:

- Querida, desde aquele dia você só me chama de Leandro. (Coitado, pobre homem)
- Que dia?
- O dia do "vamos continuar isso no motel". (Aff...)
- Hum. (roxa, branca e em tons azul marinho)
- ?
- Carlos, não consigo lembrar seu nome.
- Carlos? Meu deus, você só pode ter algum problema.
- Desculpa a falta de intimidade.
- O quê? Mas eu me sinto desrespeitado assim.
- Mesmo?
- ... (pensando, muito muito sem graça)
- ? (ela impaciente)
- Ah, quer saber, acho que não.
- Não?
- Não. Podemos ficar apenas no Leandro daquele dia? (Coitado, pobre homem)
- Mas eu acho que eu preciso ir embora.
- Faça um esforço, querida, pelo amor de...
- Sandro, eu não acredito nessas coisas, nunca acreditei.
- Você é louca.
-(esperando uma reação contundente)
- Vai embora.

E assim ela foi. Dias depois, já totalmente Leandro, ele ligou de novo. Voltaram. E o casamento durou 19 anos, até que ela começou a chamá-lo por nomes de mulher.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, bom mesmo.
O melhor do final é a inversão dos papéis se é que assim posso dizer. Ela por pior era ao menos lhe dava um nome próprio, ele no final nem isso faz... apenas mulher... uma denominação que lembra mulher... "qualquer uma" ou mulher "são todas iguais" e por ai vai...

È dificil comentar um texto desses... por isso é bom lê-los.

Letícia Buendía disse...

Excepcional...vibrei com o final (se é que teve algum final) da historia...