Estou relendo Anaïs e isso provoca estados muito alterados em mim. Como o texto anterior, por exemplo. Sem querer me justificar, claro, quem me conhece sabe que eu não acredito em justificativas, nem as cobro e nem as dou. Se a vida comportasse mesmo um "porquê" para tudo não existiria nem a arte como um todo, e nem sobretudo a poesia.
Sendo assim, queria comentar do trecho no qual ela fala de sua temida "sinceridade" em tudo o que escreve. Isso já gerou certa polêmica nesse blog, com uma pessoa que comentava anonimamente, porque eu mesma não acho necessário medir o grau de sinceridade do que escrevo. Mas ao me deparar com isso em Anaïs percebi o quanto isso pode ser angustiante para as outras pessoas, porque eu, como a June que sou, apaixonada por ela, quero engolir Anaïs a cada letra, cada frase, e me senti traída até as últimas vísceras de imaginar que um detalhe sequer daquelas páginas de diário pode não ser verdade. Uma coisa de associar verdade com integridade, com unidade, coerência, segurança.
Mas meu deus, o que é verdade? E mais ainda: quando foi na minha vida inteira que eu realmente me importei com ela??? Eu sempre achei as pessoas capazes de inventar sobre si mesmas muito mais interessantes do que quaisquer outras, acho que "o que pode ser imaginado não precisa jamais ser perdido", já diria Clive Barker. Sim, parte do que vivemos é sempre invenção, tanto a invenção inconsciente da memória, como na própria raiz do que buscamos viver ou atraímos viver está a parcela definitiva de tudo o que sonhamos. Mesmo que secretamente.
Por isso pra mim histórias que por medo não começam são ainda mais tristes do que as que prematuramente terminam. Se é pra escolher, eu prefiro o trágico ao macio. Não sei entender qual é o grande medo que move a recusa da grande maioria das pessoas. Não, não dá para viver de julgamentos, imaginem se Anaïs tivesse julgado Henry ou June, nem ela mesma sabe mas, metade de mim (uma mulher que nasceu décadas depois) não teria sequer existido. Nada daquele universo teria existido. E é isso que eu tento, ao viver minhas paixões intensamente. A gente nunca sabe o quão essencial pode ser tornar aquela vivência, e dane-se se der errado, o perigoso é achar que não tentando estamos nos protegendo.
Quem vive de verdade sabe que não tem como se proteger da vida, muito menos proteger aqueles que amamos. Fatalmente vamos ferir todos, mas aceitando a condição das falhas humanas vamos ferir menos. Recusa, pelo menos pra mim, fere mortalmente. Eu prefiro que a pessoa me doe de bom grado os seus erros, porque é isso que eu farei com os meus. Assim como June entregou a Anaïs todas as suas histórias mentirosas, sabendo que se para ela eram verdades, era esse o erro essencial que preservava a beleza de June: ser perfeita no erro. Assumidamente perdida, porque é essa a real condição de todos nós. Ou alguém por acaso tem a ousadia de dizer que sabe exatamente do que se trata a essência da vida humana?
Enfim, são devaneios meus que surgem lendo essa criatura que um dia já deve ter caminhado do meu lado, pelas ruelas de Paris. Só pode ser. Um dia eu e ela sentamos juntas no Café de la Régence, na Rue St. Honoré, 261, onde diz a lenda que Napoleão e Robespierre jogavam xadrez. Será que esse café ainda existe??? Ou teria ele sido também parte da tremenda e maravilhosa invenção que sou eu e June...
Eu sinto vontade de agarrar a vida como se caça um búfalo selvagem. ahahahaha
Eu quero...
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