Vai parecer trivial dizer que de fato sou muito grata a todos os momentos que vivi. Mas não é nada trivial e muito menos fácil de se sentir. Em geral somos sempre muito ingratos à nossa própria história. Esquecemos detalhes preciosos de pequenos momentos, deixamos passar as lembranças de coisas mais simples, tentando nos ater apenas em fatos "importantes", sendo que o que realmente importa geralmente passou rápido demais, quase tão rápido ou então sutilmente demais para ser lembrado nas tardes ociosas de domingo.
Essa é uma tarde de domingo que não deveria ser ociosa. Mas é uma tarde na qual estou milagrosamente me lembrando de quase tudo.
E só agora estou me dando conta do tanto que eu não deveria mais esquecer...
Pé torcido na rampa do bar, doce de maracujá com doce de leite servido na cama, macarrão de panela de pressão, miojo na caneca, a beleza - a roubada - e o dilúvio, ganhar as revistas dos Doors e me perder pela primeira vez de madrugada, os pés balançando sobre os carros na ponte, a mulher no supermercado falando pra nunca ter vergonha de amar, a noite de queijo e vinho no banco reservado a duras penas na praça da liberdade, fingir que to dormindo no chão daquela festa, a roupa suja de grama de rolar no milharal cantando Fiona, correr vestida de colegial naquele sítio, batata rufles com chocolate suflair na porta do supermercado, assistir a incrível fábrica de chocolate e atrás da linha vermelha ao mesmo tempo, roubar o saca rolhas do supermercado, dançar cat power tomando st remy no colchão da sala, tomar porre de caipirinha até brincar de tubarão pelo chão do apartamento, rir feito criança da lama toda da ufmg presa na nossa roupa, chorar feito criança porque passei um trote pra ele e nao devia, abraçar ele de costas no show cover do iron, assustar com cada barulho de moto achando que é ele chegando, fumar um pela primeira vez no alto do morro do parque mangabeiras, ver as velas serem acesas ao som de "nós gatos já nascemos pobres", despedir no dia da apresentação de trapezistas, fingir que torci o pé pra não ter que mostrar que não sabia ainda jogar malabares, conhecer o metrô de sao paulo com uma mochila de retirante nas costas, descobrir o poder de uma varanda de noite, o primeiro piercing de presente de aniversário, sair correndo da festa do teatro sem acreditar no telefonema recebido, deixar o dia raiar entre a praça e a padaria mais próxima, e deixar que cada um desses momentos seja como o dia, a tarde e a noite que couberam dentro da expectativa de uma despedida para londres e uma apresentação do Requiem de Mozart no dia seguinte... Lacrimosa. Dies Irae. Confutatis.
Cada coisa, cada uma dessas pessoas... sim, misturei todas as histórias, mas na minha cabeça cada uma está separada, salva, e eternizada.
sim, numa alma capaz de amar para sempre.
Mas agora eu quero superar cada um desses momentos. Cada um deles ficar pra sempre guardado no passado... agora eu quero abrir espaço, além de todo o já vivido, para que eu possa estar presente, no presente...
(aprendendo que saudade também é possível se ter de quem ainda não existe. e o abandono aliviante de peso que é simplesmente se desprender...)
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