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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ohne Dich.

Vestir aquela lingerie guardada foi como
transformar em vestes alguma antiga professia:
meu afeto abalado pelas mãos ausentes
de outra não-vinda.
Ela então olhou-se longamente no espelho,
por horas críticas que
nenhum outro invento conteria,
e descobriu-se mais pálida que o natural
mais bonita que o natural
mais fria que o natural.
Cheia de fome por todos os poros,
e cerejas saindo de cada uma de suas amarras
agora soltas.
Não podia deixar de tentar entender
como a lingerie que comprara para ele
ia se esvaziar tão soturna assim,
nos braços de outro.
Será que o outro vai sentir a marca desse
primeiro,
da idéia original para a qual
essa roupa de entregar-se foi escolhida?
Será que ao rasgá-la
os gritos que eu queria dar vão sair-se todos
alvoroçados por entre as frestas do tecido
rompido assim que nem o meu desejo?
Será que vai achar alguma víbora vasculhando
essa ferida
quase oculta)
como uma tatuagem que cicatriza
tornando mais cor a pele que for
mais profundamente atingida?
Não mais teus olhos, não mais figuras,
não mais imaginar,
nada mais de baixo para cima.
Você não vai ajoelhar-se como disse.
Você não vai ver pontes como disse.
Você não vai sobrevoar meus devaneios
como eu disse.
O outro que venha
e prove da essência que era
para ser exclusiva.
O doce amargo da cereja com a pimenta
sendo ainda uma lembrança
tão atual quanto esquecida.

Um comentário:

A Arrasada! disse...

É difícil despir-se de alguém...
E tão delicioso se deixar vestir por um novo amor.