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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

não tenho a menor idéia de porquê escrevi isso. alô freud? atende, freud!

- como assim não entregam vinho por telefone?
- isso aqui é uma drogaria, minha senhora.
- sim. supostamente vocês vendem drogas.
(...)
- a senhora está bem? posso chamar o farmacêutico.
- e ele vai por acaso me receitar alguma coisa?
- tem uns medicamentos naturais aqui que ajudam a dormir.
- e quem disse que eu quero dormir?
- senhora, por favor, eu só quero ajudar.
- minha voz é assim, de tão velha?
- o quê?
- é que você com essa insistência em me chamar de senhora, digamos que não parece estar me ajudando muito com isso.
- bem, senhora, é só por causa do treinamento. falo assim porque...
- chame o farmacêutico.
- ok... pois não.
(musiquinha ordinária de propaganda)
- pois sim?
- não vai perguntar em que pode ajudar?
- tudo bem, senhora, em que posso ajudar?
- eu quero tomar um vinho. cabernet.
- a senhora não tem condições de sair?
- tenho sim. mas sozinha não.
- olha, senhora, está sentindo alguma coisa? temos uns remédios naturais aqui que ajudam a dormir.
- eu não quero dormir, quero que entreguem vinho em casa.
- lamento perguntar, mas... a senhora não pensou em olhar no serviço de lista telefônica? pode ser que haja alguma adega 24h na cidade.
- acontece que se eu quisesse simplificar... não seria quem eu sou.
- mas a senhora sabe que é impossível então?
- sei sim.
- desculpa senhora, mas eu estou trabalhando. terei de trabalhar. pensei que fosse alguém realmente precisando de ajuda.
- eu também estou trabalhando. meu psicanalista chama isso de trabalho.
- senhora, terei que desligar.
- mas antes, você poderia apenas pensar no absurdo da coisa?
- não compreendi, senhora.
- porque vender remédios para quem não conhece me parece mais absurdo ainda. as pessoas podiam se convidar mais pra tomar vinho ao invés de se encherem de calmantes.
- ok, senhora, faz sentido.
- meu psicanalista vai chamar isso de surto. você pode chamar como quiser. pelo menos vai ter algo pra contar na cantina mais tarde.
- não temos cantina dentro da farmácia, senhora.
- coitado. já pensou em procurar o serviço de lista telefônica? pode ter alguma adega aberta aí perto.
- a senhora não está bem.
- muito pelo contrário garoto, eu nunca estive melhor. exceto pela falta de imaginação das drogarias para o quesito "drogas", eu nunca estive melhor.
- então, posso voltar ao trabalho?
- querido, ele está só começando. tem uns calmantes ótimos que ajudam a dormir. tome um deles.
(desligou, encheu a taça de mais vinho, e ligou para a funerária)
- como assim vocês não fazem vestido de noiva? não trabalham supostamente em dar uma morte confortável às pessoas?
(...)

Um comentário:

Philosophie de la guérilla disse...

rs
ja sei que vc me pediu para nao falar mais desculpas masss nao aguento me "desculpa" pela demora do comentario.

Criaçoes de uma mente em devaneio numa noite de insonia, sem nenhuma corrente ou amarraçao com os conceitos de sociedade, isso que te torna bela e mais bela ainda suas palavras uma mente solta no espaço uma eterna "tabula rasa"

rsrs


bjos linda


ps demorei por causa de um pequeno trabalho.