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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

terça-feira, 20 de setembro de 2011

"Asas"...

E de repente agora ele era um estranho. Não um completo estranho como esses que me atravessam pelas ruas. Mas pior. Muito pior, ele não era somente só um desconhecido, mas fazia em mim eu ser desconhecida para mim mesma.

Seus olhos não eram mais os mesmos. Aliás, como é que eram os seus olhos antes? Acho que eu não estava aqui, não, cara, eu não estava aqui, desde o início era apenas um clone de mim, uma ameba curvilínia, alguém muito capaz de fingir ser eu mesma e que morava confortavelmente dentro da minha pele... E você, gostava muito dela? Gostava. Será?

Mas de repente a pele abriu. Feito um lagarto morto ao sol. Rachou-se. E dentro dela saiu ele. Ele, ainda sensual, rodopiando, mas estranho, completamente estranho, como se as moedas que ele agora me entregava valessem apenas em algum país distante e desconhecido. Não reconheço mais os seus valores, apesar de achar lindas, absolutamente lindo o tilintar lúdico de suas medalhas...

Quais foram mesmo as suas batalhas? Eu estava presente em alguma delas? Xi... eu acho que já sei: eu tenho sido a pior delas, não é? Não, não das mulheres, mas das batalhas... mas ah, talvez das mulheres também, eu desprezava amando. Agora, quanta diferença: amo desprezando.

Mas sim, há muita diferença. Seguirei te amando, mas só que tem o seguinte: desde cedo tenho essa trava de não falar com estranhos. Mas sim tagarelar, é tagarelar. E acontece que você já fica cansado só de ver minha boca se mexendo pra falar... Como é que faremos.

Imagina assim: você é um estranho, desses comuns, e entra dentro de um elevador. Gravata borrada de café, saco. Tenta apagar. Percebe mais uma mancha, dessa vez no paletó, resto fino de cinza de cigarro. Na situação constrangedora de passar um pouco de saliva na beirada dos dedos pra tentar "limpar", bem nessa hora eu entro. Saia azul de bolinhas brancas, no joelho, meias negras, saltos médios, de verniz, também negro.

Bom dia.
Bom.
Tudo bem?
Tudo.
Eu te conheço?
Hum, acho que sim. Não, não tenho certeza.
É. Café. A gente podia tomar um café.
Para quê?
Não sei, sei lá, só para não sermos meio-estranhos mais.
Hum, para sermos completos estranhos então.
Sim, a convivência nos afastando.
Claro, necessidade de provar valores.
E de mentir para impressionar.
Impressionar não, causar impacto.
Qual a diferença?
Ah, sei não.
Então vamos cancelar o café.
(os dois riem)
(silêncio.)
...
...
(silêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeecio.)
Então, acho que é o seu andar.
Como? O meu andar?
Digo, o andar do prédio. Décimo oitavo.
Ah.
Desculpa, é que...
Tudo bem.
Não, só queria que essa situação constragedora acabasse logo.
Ah, eu também.
Bem, pelo menos isso ainda temos em comum.
O quê?
Tanto o andar do prédio, quanto a falta de graça com meio-desconhecidos.
É, seu lado meio-conhecido ainda sabe que eu moro nesse andar.
Ainda?
Sim, desde que começamos a namorar, dois anos atrás. Lembra?
Lembro...
Mas então, se estamos no décimo oitavo há dois anos...
Pois é...
(então os dois dizem, em uníssono:)
Como é que foi mesmo que nós dois nos tornamos...
dois estranhos???

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