Minha foto
"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

domingo, 13 de abril de 2008

Coragem. Vai doer, mas passa.

Hoje eu quero um pouco de violência. Quem sabe, a violência com a qual a chuva invadiu casas esta tarde. A violência com a qual me agarro, toda noite em que estou sozinha. Peles alheias em plena fricção. Hoje eu gostaria de espasmos, por favor. E que sejam servidos sem gelo, limão, um pouco de água gelada, rodelas de laranja ou qualquer outra coisa que amenize. Hoje eu quero a vida intensa dos pés de página, conter todas as informações chaves, mas ainda assim, não carregar toda a relevância. Não ser a promessa. Poder não ser aquela a quem você tanto espera. É fugaz e satisfatório para mim, ser o seu deslize mais crônico. Hoje eu quero a violência de não mais te aguardar vazia. Tola. E sombria. Estarei com o copo cheio até a borda quando você se atrever a tentar invadir a janela. E a porta vai estar acesa, incandescente. Pelo mesmo vento que logo antes ousou atravessá-la. E minha vida, fechada. Feito um livro de Henry Miller na estante.
Por hoje não tenho interesse algum em ser aquele pão mofado sobre a mesa da sua cozinha. Casas e abismos não são lugares para falta de caráter. Muito menos falta de coragem. O que é? Tem medo de me ferir apenas porque eu já estou sangrando demais na sua blusa? Pode descer essa mão, por favor, e acertar mais uma vez essa minha cabeça. Se a pancada tivesse sido suficiente eu não estava te pedindo isso. Desce. Desce essa mão seca e vê o que acontece. Eu paro de sangrar na mesma hora. Nada fica. A mendicância é curada instantaneamente. Tudo isso por causa desse seu porre de araque. Merda. Eu sou um continente em plena erupção. Eu quero violência. Mas tem que ser uma espécie de violência macia, como a suave e ferina indolência dos psicopatas. Quero alguém que me mate com a certeza plena de estar conquistando um velório, cansei de homens culpados de mais por serem ainda aqueles que amamos. Não há merda alguma em ser homem. A não ser quando acordam de manhã chorando e querem ser consolados pela noite de ontem ou pela tarde da qual eles não sabem ainda o que vai ser. A água vai encher casas, eu disse. As falanges amassadas na mão manchada foi o presságio para que disso eu, tivesse plena certeza. Hoje será... a eterna tarde dos desastres. Mas ele não acreditou. E quase morreu de enfarte. Fulminante foi minha vontade de encerrar seus olhos nos meus punhos. Mas não foi mais forte do que minha sede por algum sangue meu que parasse de escorrer aveludado. Por isso, enchi o copo até a borda; por favor. Eu gosto mesmo é de morrer gostando.

Pronto? Agora desce essa mão e bate. Não é o meu rosto mais que está na sua frente. Vamos, eu quero a verdadeira violência, aquela pela qual você não esperava. Eu quero...apenas, que você, que você se encare.

5 comentários:

Samantha Abreu disse...

ô Lú...
Henry Miller na estante já me cria um cenário plenamente ardente.
E essa violência intensa me faz serva, me faz escrava. É irresistível.
Sou suscetível demais à ela e suas invasões, decepações e, inevitavelmente, suas cicatrizes.
Um beijo!

Ana disse...

Engraçado é que ele próprio é uma bofetada.

Anônimo disse...

vou pegar o chicote!

Milena Magalhães disse...

Lu, um espasmo que não tem nome foi o que senti ao te ler!

R.Braga disse...

Ferir é necessário. Sinta a dor na carne e supere ao ver a luz e sentir o seco da cicatriz depois.
Adorei o conto.
Bjs.

Rodrigo Braga.