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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Isso é só uma bonequinha trágica viajando ontem pra algum lugar, como a Rússia por exemplo.

Querendo alguém que pudesse desvendar, "molhadamente", minha maneira de sofrer sem dor. Sinto falta de quartos de hotel com janelas para um desejo certo e uma crença que não se sabe. Não é necessária. É falso.
Não necessita-se de acreditar para viver.


Só mesmo vivendo em tua flora, descobrindo-me ser tua fauna é que eu vou acreditar. Em um monstro com um nome feminino e curioso e um guardanapo de papel que guarda salivas e saudades.

Algo como se o término de um relacionamento pudesse ser enlatado, na mesma tarde, dentro de uma conserva de abacaxi. E durasse um ano, um ano para tentar arrepender de forma crescente, e esperar do lado de fora da saguão do aeroporto, com os braços ansiosos em meio aos cartazes, pronto pra dizer uma frase que já perdeu a validade, mas que ainda continua latejando, feito chute encaixado no tornozelo esquerdo durante a partida. Feito bater com as costelas na quina da mesa depois de um tombo no piso molhado da cozinha, e ainda cair com a calça nova no piso cheio de água sanitária, sabão e desinfetante.


E a porta do saguão se abre, e pessoas e pessoas vão passando, casacos sendo tirados, gente espirrando, homens conferindo bagagens, velhas ajeitando os cabelos, criança pedindo pra ir no banheiro, abraços cansados de família e, é claro, o olhar do segurança estranhando que você ainda está ali, de pé, no mesmo lugar, já há tempo demais. Não faça nada de muito estranho em aeroportos, por favor, eles andam muito assustados. Deixe para mostrar o quanto você é capaz de tornar sedutoras as tuas ânsias dentro do quarto, no hotel, novamente quando, a gente for pego de surpresa, e puder comprar um chocolate naquela cafeteria e fumar um cigarro daqueles sem precisar de disfarces. Mas... o tempo tem mesmo se tornado um alarde.


Olha quantas músicas já se passaram entre eu e sua nova namorada, e você continua fingindo que ainda gosta de Belle and Sebastian. Pelo amor de deus, compre outro cd. Me recuso a imaginar aquela parte de cima do seu joelho sem as minhas pomadas pra dor. Fora o tampo de baixo do piano sendo limpo por outras flanelas. Eu limpava suas teclas toda tarde, e você tocava em mim toda noite. Agora um pano úmido é passado sobre os fios de cabelo que deixei esquecidos. Aspirador de pó sugando os restinhos das minhas unhas cortadas na beirada da cama de casal. Pano de prato novo e de cor diferente. Não posso pensar.


Preciso de alguém pra descobrir maneiras mais sólidas de desconstruir minhas líquidas fachadas, meu disfarce cheio de fumaça saindo do pulmão, da boca carnuda, da carne crua que não como desde que... desde que... você foi embora?


Enfim, lá pelo segundo parágrafo eu já tinha desistido deste texto. Impossível. Nunca mais eu fico duas horas na fila do supermercado esperando pra trocar a ração que eu comprei errado pro gato. Será que restam outras coisa dos amores que perdemos fora essas lembranças de tardes desperdiçadas?


Por que as horas perdidas do passado são como encontrar uma nota de 10 reais amassada no fundo do bolso do casaco quando se está sozinho num bar lotado e o dinheiro e o cigarro acabaram? É como aquela sombrinha perdida no banco doe trás do taxi em um dia de chuva. Parece um salva vidas gritando da areia.


Bom, "se as lembranças podem mesmo ser enlatadas, espero que venham sem prazo de validade"*.
(* frase do filme "Amores Expressos)

5 comentários:

onomatopoepic disse...

as horas perdidas do passado são como encontrar uma nota de 10 reais amassada no fundo do bolso e quando - alegre e inseguro - apressado em utilizar, o fato: moeda ultrapassada.

Milena Magalhães disse...

Lu, suas comparações são como flechadas certeiras naquela dor que, por isso, por causa das flechadas, não vai embora. Eu te imagino duende nestes teus mundos mágicos e assustadores; que são espécie de joelhadas contínuas em busca de alguma paz... ou de dores ainda mais perversas. Sua literatura é um soco terrível... eu que me orgulho de te ter como amiga.

Sinto vontade de me teletransportar para beber uma cerveja contigo... e sem ser fumante aspirar a fumaça dos seus cigarros.

Beijo!

onomatopoepic disse...

vou negar a oportunidade de mentir e dar uma visão mais romântica à coisa. a verdade é que vi o filme faz uns 3 meses, e desde então queria escrever um texto envolvendo as tais latas de abacaxi. quando li em teu blog, me senti pressionado a colocar logo alguma coisa. mesmo que menor do que a primeira idéia pedia.

de qualquer forma, é um lindo filme. assistiu ao my blueberry night, no cinema?

onomatopoepic disse...

E durasse um ano, um ano para tentar arrepender de forma crescente, e esperar do lado de fora da saguão do aeroporto, com os braços ansiosos em meio aos cartazes, pronto pra dizer uma frase que já perdeu a validade, mas que ainda continua latejando..

Carola disse...

pq q a gente fica tanto tempo remoendo amores mortos??

fila da troca de mercadorias... pode ser uma analogia a busca de um novo amor né, e enquanto a gente não troca o sentimento remoído e velho por um novo, a fila fica ali, parada... não anda d jeito nenhum...

mto bom Luciane! bjus!