É, faz sentido. Reconheço poucas paredes agora. Sério mesmo. Elas deram pra ficar absolutamente caladas enquanto eu troco de roupa. Sem contar as portas, meu deus, nunca mais as horas e horas de conversa de antes. Fazer o quê. No começo pensei que era ciúme. Afinal, troquei as dezenas de portas e paredes da casa dos meus pais por simples 4 paredinhas da minha quitinete, o coitado do lugar só tem uma porta. Isso porque a porta do banheiro não conta, ela nunca falou. Toda vez que vou tomar banho tenho mesmo que dar uma super pancada na pobre, por isso ela não responde. Mas agora percebo que nunca foi ciúme. Elas viram, sim sim, e como viram, que eu gradativamente estava perdendo a lucidez. Algo do tipo baratas voadoras subindo no teu prato, entende? Cheguei a pensar que fumo escondido. E que bebo socialmente. Coisas sem lucidez. E minha vida de repente ficou áspera demais pra suportar a idéia de que as horas podem ser... mais suas do que minhas. É, faz sentido. Os deuses não iriam permitir tal façanha. Duas pessoas que se amam andando juntas. Juntas como? Perguntariam os deuses, estupefatos. Eu respondo. Aliás, respondi.
Agora não mais. Não tenho mais paredes para ouvir as respostas. E até as portas que poderiam tecer melhores comentários que ele, se recusam a falar. Isso dói, cara. E de pensar que comprei tanta coisa, que pensei em presente e tudo. Pois é. Tem muita gente agradecida por aí enquanto eu continuo acenando de lencinho branco na mão enquanto o trem vai embora.
Pelo menos a cena bonita. A falta de fala, fica interessante. Os cabelos em desalinho sensual. A maquiagem borrada apenas o suficiente para destacar a dor dos olhos. E é claro, o fundo musical. Cara, como sofrer pra mim é coisa de cinema. Você é teatral demais, os deuses diriam. Mas conte pra eles, por mim, por favor, que pouca gente sobrevive sem paredes como tenho feito. Pra arrematar, olha só: o cenário é todo de época. 2003, pra ser mais exata. Fora o vento, nada cenográfico. Exploraremos os sons e a luz natural. Uma proposta um tanto quanto, intimista, entende? Mínimo. Mais. Mas gente, alguém segura o figurante por favor, precisa ter alguém fingindo de homem pra cena fazer sentido!
3 comentários:
o cinema da vida. o caos da vida. a verdade e a mentira. tudo ali no rosto triste da atriz. nas portas fechadas e silenciosas.
sim, dona moça, é tudo tão dilacerante. a voz rouca diz tanto.
beijoca.
gosto um bocado disso daí.
dói um bocado hoje, por aqui.
andou sumida.
já tive dessas dores cinematográficas. hoje dói ainda mais, assim, sem lágrima.
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