Como escrever sobre isso?
Afinal, o que eu tenho mesmo pra dizer?
Estou em um momento no qual certezas se constroem tão sólidas como nunca antes, e ao mesmo tempo, exatamente ao mesmo tempo, existem outras certezas anteriores, aparentemente indissolúveis, que estão se desfazendo mais rápido do que a fumaça dos cigarros que eu fumo. E ah, não deveria, mas não tem como não fumar neste momento. A serpente cinza claro que sobrevoa ao meu redor quando acesa me faz companhia. A inevitável companhia que sempre queremos a cada momento, por mais que agora eu saiba mesmo, e ainda muito bem, como aproveitar meus momentos sozinha.
Estou mais tranqüila, contudo, com os meus erros. São imperdoáveis, eu creio, mas se eu mesma os perdôo, não vai haver outro júri que pudesse ser mais implacável comigo. Estou diante de uns olhos que me observam espelhados, e sei que muita gente vai ler isso aqui e pensar coisas além do problema. Mas se minha voz não está mesmo muda, eu posso me defender. Tenho andado calada ultimamente. Apenas quando bebo, costumo falar com as paredes. Sim, porque certas pessoas são paredes, e com certeza significam muito menos pra mim do que as paredes propriamente ditas do meu quarto onde estou agora, minha casa, que eu não estou mais conseguindo pagar, mas que de algum modo ainda permanece minha, porque aqui me constituí como gente, porque aqui vivi pequenos momentos que para mim foram mais grandiosos do que a própria descoberta da pólvora. Aqui eu amei, esqueci, depois amei de novo e agora já não lembro senão dos copos muitos que lavei, que quebrei, das inúmeras roupas penduradas por todos os lados, por falta de móveis onde guardar ou secar. Dos talheres com morangos desenhados nos cabos. Prendedores de sacolas plásticas em formato de joaninha. Tudo coisa minha, “minha cara”, todo mundo concorda, coisas que foram surgindo aqui simplesmente porque aqui eu me tornei o indivíduo que talvez eu tenha nascido para ser: a enigmática sombra de mim mesma.
Sim, porque eu tenho múltiplos talentos, eu poderia estar em muitos lugares agora, realizando uma porção de coisas, no entanto estou aqui, escrevendo, porque foi sempre assim, e assim sempre vai ser, mesmo que daqui a algum tempo tenha alguém cochilando ali do lado na cama, e o cenário lá fora não seja o mesmo. Ainda que meus pais um dia sejam apenas só lembrança, como hoje minha irmã é, não porque ela seja menos real simplesmente porque se foi, mas sim porque nada dela eu posso tocar. A morte é um assalto à mão armada que nos leva tudo, até a roupa do corpo, pra nos deixar pelado em frente ao mundo e nos dizer: olha de novo, olhe para si mesmo, é essa a sua condição. Você está só e nu. Sim, ache alguém para amar, construa pontes, escreva seus versos, bote alguém pra fora, compre carros, beba cerveja, fume, conheça lugares, use drogas, faça sexo sem camisinha. Que eu estarei ali, do lado, acompanhando cada segundo para ver qual é o mais precioso, e esse é o que eu vou te roubar primeiro. E dizendo isso, a morte sai, e em seguida, como se nada tivéssemos escutado, caímos no esquecimento.
Eu escrevo porque poucas vezes alcanço esse esquecimento. Deixo de ir em aulas e provas, porque sei que pouca coisa significa, é como se eu estivesse o tempo inteiro acordada, dentro de uma sala de depoimentos, com deus olhando fixamente pra minha cara, me perguntando onde eu estava na cena do crime, quando a maldita humanidade foi criada. E eu só saio ilesa da sala de depoimentos porque nunca acusei o tal Jesus de nada. Deus está colhendo testemunhos porque ele quer entender quem criou essa história de que ele sequer existe. Por isso dormir abraçada com alguém vale mais do que uma pós-graduação no exterior pra mim. Porque quando eu estou sentada diante da morte jogando meu xadrez enquanto acendo um cigarro, bebo um copo de vodka e mais uma vez deixo de ligar pra minha mãe, vai ser nos braços dele em volta da minha cintura que eu vou estar pensando. Pense: se você estivesse diante de morrer, iria pensar mesmo na prestação atrasada da geladeira? Iria tentar barganhar um câncer contando à suas células desordenadas que você tem doutorado na Alemanha? Ou vai sair andando às ruas pensando em quantas vezes você deixou de olhar para o céu porque estava atrasado para a aula. Quantas pessoas você dispensou da sua vida simplesmente porque teve medo de existir de verdade, teve medo da força do laço sobre você, medo do que te faz perder os sentidos, porque te ensinaram na escolinha que as coisas têm que ter uma lógica, uma razão de ser, pra tudo tem de haver um sentido, e você se esqueceu de que o único sentido que importa para as tais coisas, é o sentido que você vê.
Ando um pouco cega ultimamente, devo admitir e não sou ninguém para julgar. Mas aí um amigo me fala que onde ele está a Lua é mais bonita do que nunca, e eu de novo me pego na frente do computador chorando, porque eu queria estar debaixo dessa mesma Lua, aí eu volto ao cientificismo barato e lembro que só tem mesmo uma única Lua, mas aí retorna a poesia de dentro de mim e me diz que, com absoluta certeza, existe uma Lua para cada criatura que olhe para ela. Ou a imagine, se for cego de nascença. Porque se a Lua fosse uma só, seus braços também não alcançariam Belo Horizonte, e eu gosto de dormir sempre imaginando eles em volta de mim, e sim, seus braços passam a ter todo o comprimento necessário para chegar da sua distância até aqui. Love and Misery. Sim.
Eu sou uma pessoa que vive de momentos. Como se eu, de tanto escrever, tivesse entrado na poesia e decidido não ser mais o poeta, e sim o verso, porque ser poeta cansa e dói. Eu fico então me “auto-parindo”, fazendo uma paródia, e a cada coisa que vivo, estou tatuando na pele arrepiada da memória mais uma palavra pra encaixar num verso qualquer do que sinto. Do que sou. Não sei se posso ser confiável por isso. Tudo em mim está em nome da poesia. E talvez, da tristeza. Quando eu decidi me tornar verso, foi a melancolia que assinou o contrato como testemunha. E uma certa agonia serviu de avalista. Não posso mais voltar atrás? Ah, eu queria ser como as pessoas de ação de Dostoévski, e conseguir simplesmente sair daqui andando. Mas volto a ler a mensagem que deixaram pra mim, e sinto de novo que a Lua do meu amigo é mesmo outra Lua. E isso me paralisa. Paralisa porque sei que nunca vou conhecer todas as Luas. Estranho, não é? Era pra eu sair por aí pelo menos tentando conhecer algumas. Mas... prefiro ficar fechada no quarto, inventando que estou cumprindo pequenas obrigações alheias, enquanto um Sol qualquer está rachando lá fora. As pessoas de ação iriam achar o dia lindo. Eu apenas fico a imaginar em qual poema da minha vida de tatuagem escrita eu poderia encaixar o verso agoniado deste dia.
Afinal, o que eu tenho mesmo pra dizer?
Estou em um momento no qual certezas se constroem tão sólidas como nunca antes, e ao mesmo tempo, exatamente ao mesmo tempo, existem outras certezas anteriores, aparentemente indissolúveis, que estão se desfazendo mais rápido do que a fumaça dos cigarros que eu fumo. E ah, não deveria, mas não tem como não fumar neste momento. A serpente cinza claro que sobrevoa ao meu redor quando acesa me faz companhia. A inevitável companhia que sempre queremos a cada momento, por mais que agora eu saiba mesmo, e ainda muito bem, como aproveitar meus momentos sozinha.
Estou mais tranqüila, contudo, com os meus erros. São imperdoáveis, eu creio, mas se eu mesma os perdôo, não vai haver outro júri que pudesse ser mais implacável comigo. Estou diante de uns olhos que me observam espelhados, e sei que muita gente vai ler isso aqui e pensar coisas além do problema. Mas se minha voz não está mesmo muda, eu posso me defender. Tenho andado calada ultimamente. Apenas quando bebo, costumo falar com as paredes. Sim, porque certas pessoas são paredes, e com certeza significam muito menos pra mim do que as paredes propriamente ditas do meu quarto onde estou agora, minha casa, que eu não estou mais conseguindo pagar, mas que de algum modo ainda permanece minha, porque aqui me constituí como gente, porque aqui vivi pequenos momentos que para mim foram mais grandiosos do que a própria descoberta da pólvora. Aqui eu amei, esqueci, depois amei de novo e agora já não lembro senão dos copos muitos que lavei, que quebrei, das inúmeras roupas penduradas por todos os lados, por falta de móveis onde guardar ou secar. Dos talheres com morangos desenhados nos cabos. Prendedores de sacolas plásticas em formato de joaninha. Tudo coisa minha, “minha cara”, todo mundo concorda, coisas que foram surgindo aqui simplesmente porque aqui eu me tornei o indivíduo que talvez eu tenha nascido para ser: a enigmática sombra de mim mesma.
Sim, porque eu tenho múltiplos talentos, eu poderia estar em muitos lugares agora, realizando uma porção de coisas, no entanto estou aqui, escrevendo, porque foi sempre assim, e assim sempre vai ser, mesmo que daqui a algum tempo tenha alguém cochilando ali do lado na cama, e o cenário lá fora não seja o mesmo. Ainda que meus pais um dia sejam apenas só lembrança, como hoje minha irmã é, não porque ela seja menos real simplesmente porque se foi, mas sim porque nada dela eu posso tocar. A morte é um assalto à mão armada que nos leva tudo, até a roupa do corpo, pra nos deixar pelado em frente ao mundo e nos dizer: olha de novo, olhe para si mesmo, é essa a sua condição. Você está só e nu. Sim, ache alguém para amar, construa pontes, escreva seus versos, bote alguém pra fora, compre carros, beba cerveja, fume, conheça lugares, use drogas, faça sexo sem camisinha. Que eu estarei ali, do lado, acompanhando cada segundo para ver qual é o mais precioso, e esse é o que eu vou te roubar primeiro. E dizendo isso, a morte sai, e em seguida, como se nada tivéssemos escutado, caímos no esquecimento.
Eu escrevo porque poucas vezes alcanço esse esquecimento. Deixo de ir em aulas e provas, porque sei que pouca coisa significa, é como se eu estivesse o tempo inteiro acordada, dentro de uma sala de depoimentos, com deus olhando fixamente pra minha cara, me perguntando onde eu estava na cena do crime, quando a maldita humanidade foi criada. E eu só saio ilesa da sala de depoimentos porque nunca acusei o tal Jesus de nada. Deus está colhendo testemunhos porque ele quer entender quem criou essa história de que ele sequer existe. Por isso dormir abraçada com alguém vale mais do que uma pós-graduação no exterior pra mim. Porque quando eu estou sentada diante da morte jogando meu xadrez enquanto acendo um cigarro, bebo um copo de vodka e mais uma vez deixo de ligar pra minha mãe, vai ser nos braços dele em volta da minha cintura que eu vou estar pensando. Pense: se você estivesse diante de morrer, iria pensar mesmo na prestação atrasada da geladeira? Iria tentar barganhar um câncer contando à suas células desordenadas que você tem doutorado na Alemanha? Ou vai sair andando às ruas pensando em quantas vezes você deixou de olhar para o céu porque estava atrasado para a aula. Quantas pessoas você dispensou da sua vida simplesmente porque teve medo de existir de verdade, teve medo da força do laço sobre você, medo do que te faz perder os sentidos, porque te ensinaram na escolinha que as coisas têm que ter uma lógica, uma razão de ser, pra tudo tem de haver um sentido, e você se esqueceu de que o único sentido que importa para as tais coisas, é o sentido que você vê.
Ando um pouco cega ultimamente, devo admitir e não sou ninguém para julgar. Mas aí um amigo me fala que onde ele está a Lua é mais bonita do que nunca, e eu de novo me pego na frente do computador chorando, porque eu queria estar debaixo dessa mesma Lua, aí eu volto ao cientificismo barato e lembro que só tem mesmo uma única Lua, mas aí retorna a poesia de dentro de mim e me diz que, com absoluta certeza, existe uma Lua para cada criatura que olhe para ela. Ou a imagine, se for cego de nascença. Porque se a Lua fosse uma só, seus braços também não alcançariam Belo Horizonte, e eu gosto de dormir sempre imaginando eles em volta de mim, e sim, seus braços passam a ter todo o comprimento necessário para chegar da sua distância até aqui. Love and Misery. Sim.
Eu sou uma pessoa que vive de momentos. Como se eu, de tanto escrever, tivesse entrado na poesia e decidido não ser mais o poeta, e sim o verso, porque ser poeta cansa e dói. Eu fico então me “auto-parindo”, fazendo uma paródia, e a cada coisa que vivo, estou tatuando na pele arrepiada da memória mais uma palavra pra encaixar num verso qualquer do que sinto. Do que sou. Não sei se posso ser confiável por isso. Tudo em mim está em nome da poesia. E talvez, da tristeza. Quando eu decidi me tornar verso, foi a melancolia que assinou o contrato como testemunha. E uma certa agonia serviu de avalista. Não posso mais voltar atrás? Ah, eu queria ser como as pessoas de ação de Dostoévski, e conseguir simplesmente sair daqui andando. Mas volto a ler a mensagem que deixaram pra mim, e sinto de novo que a Lua do meu amigo é mesmo outra Lua. E isso me paralisa. Paralisa porque sei que nunca vou conhecer todas as Luas. Estranho, não é? Era pra eu sair por aí pelo menos tentando conhecer algumas. Mas... prefiro ficar fechada no quarto, inventando que estou cumprindo pequenas obrigações alheias, enquanto um Sol qualquer está rachando lá fora. As pessoas de ação iriam achar o dia lindo. Eu apenas fico a imaginar em qual poema da minha vida de tatuagem escrita eu poderia encaixar o verso agoniado deste dia.
7 comentários:
Tenso, denso como a vida. Me sinto um intruso lendo seu texto, um intruso que olha a sua própria lua e acredita ver a lua alheia também, não sei se posso entender o que sente.
Sinto também, mas há tantas variaveis quanto os numeros conseguem contar.
Se bem entendi alguns pontos, temos pontos em comum em nossas inseguranças, tão comum que estão tão ou mais próximas que estes braços imaginarios e confortaveis...
São como cenas cinzentas passando por mim. Eu queria aprisionar cada uma das coisas que você escreve. existe um fascínio quase infantil na minha leitura dos seus textos e no entanto esse é um dos mais significativos que já lí. Você pode ter certeza: você realmente virou o verso.
Poxa, deixe-me reflectir um pouco,rsrs mas nao sera uma eternidade, penso um pouco antes de falar, pois minhas palavras se convertem em acçoes. So uma coisa a Lua é a mesma o que muda é nossa forma de admira-la, mas com certeza la onde seu amigo deve estar, a Lua é exuberante...
Quando Sylvia Plath suicidou, ela pôs em risco a vida de suas crianças de tal modo, que elas quase morreram congeladas.
_____________
"o reverso...deste dia",
"a lua", a noite,
"a serpente cinza",
"o câncer",
"sombra..de mim mesma",
"cego de nascença",
inadimplência,
a morte (de "Sylvia Plath")...
que porra é essa que te prende nessa S O M B R A?
que te infantiliza?
que bosta é essa que nem vc nem ninguém que escreve aqui vê
que essa merda é pura de-pressão (nao soh do cérebro, mas da alma)?
É tudo lindo, mas lindo como um belo caxão. NADA DE ELOGIOS.
Arranja ajuda. Alguém chama ajuda por favor!
Transforma a merda em esterco. Antes que se afunde nessa areia movediça.
Assinado: vc n me conhece, sou só um enxerido,
desses loucos que andam e observam tudo pelo campus. Um esquizo.
Já sumi.
PS: a sombra é cíclica. A espiral é para baixo. O fim é enfadonhamente previsível. E repetível: o filho de Sylvia Plath, professor universitário de renome, suicidou em 16 de março de 2009.
Paulo, paulo...
Acho que quem precisa de ajuda médica é vc. De onde tirou essa agressividade gratuita toda? De uma mente feliz e estruturada é que não foi.
Bem, eu sei que o texto é um tanto comprido, mas se teve tempo de ler uma vez, tem tempo de ler a segunda. Então releia. E aprenda um pouco mais sobre melancolia. E sobre suicidas tbm. Mas enfim, de mim posso falar. Não sei se chegou a ler o texto todo, mas qnd falo q virei verso, estou justamente me eliminando do risco de morrer como morreu Sylvia. E gosto mto e intensamente da minha melancolia, pois não vejo nada nela de mto diferente da suposta "alegria" a q estamos todos condenados a perseguir pelos padrõezinhos de vida perfeita esparramados pelo mundo. Não sei se já te avisaram, mas a vida é mto complicada, tudo o que acreditamos não vale mesmo senão para nós mesmos, e a melancolia em mim é apenas a lente que ajuda a enxergar essa verdade e de fato, poder falar sobre ela com propriedade e beleza.
E não sei se Sylvia ao ser hoje uma ex-dona de casa, feliz, divorciada e que frequenta clubes para senhoras alegres de meia idade teria impedido seu filho "realizado" de se matar. Existe mesmo uma pessoa como vc que acha que suicídio pode não ser uma questão absolutamente pessoal?
Eu só lamento que a sua necessidade de "alegria" tenha impedido vc de saber reconhecer a beleza até mesmo onde ela é precisa ser feia e ser doente para existir. As coisas são dialéticas, meu caro, e a tão sonhada linearidade humana pelos médicos é algo do qual eu nunca necessitei para viver.
Mas enfim, se um dia eu achar um bom psiquiatra, eu te indico. Só vc liberar o seu blog para q eu possa ter acesso, uma vez q isso significaria também que vc se tornou capaz de discutir as críticas que lhe cabem, ao invés de ficar se escondendo, bloqueando perfil, atrás de seu medinho virtual.
Eu não mordo. Só qnd eu quero. E sim, melancolicamente.
"Estou mais tranqüila, contudo, com os meus erros. São imperdoáveis, eu creio, mas se eu mesma os perdôo, não vai haver outro júri que pudesse ser mais implacável comigo. "
só reler o texto. rsss
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