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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 12 de junho de 2009

presente!

Já começar o dia pensando em você. Assim, sem muita razão mesmo. Simplesmente porque só pensar que você é possível já altera para o bem a dinâmica do dia. Quem sabe voltar a desejar, quem sabe voltar a querer, quem sabe o medo vira alguma outra coisa, quem sabe os detalhes que imaginamos podem mesmo ser.
E por alguma razão, desde que te (re)conheci eu (re)comecei a sentir fundo as pequenas delícias do dia. Ontem indo para o mercado me fundir em cheiros e desejos de consumo abstrato, ao passar pela velhinha que sempre me cumprimenta, reparei que a velhice é mesmo cinza. Um cinza prata que pode se apagar, mas não necessariamente precisa. Um quadro que não dá para pintar com outras cores porque elas estariam então pintando as memórias. Eu e você seremos um belo retrato na lembrança?
Passada então a criança, tudo me invadia. Exagero sim, mas quase chorei no mercado. Tudo isso que ainda havia e tudo que (re)começava me subindo pela garganta. Pára! Me abraça? Vamos deixar. There's no way back.
E agora de manhã, o café com paçoca, um cigarrinho, a música da lua e você ajeitando as almofadas dentro do meu peito para se aconchegar. Aos poucos. Até me possuir por completo, não é? Risos.
E já não sei mais se quero filosofia antiga, já não sei mais se falarei mesmo francês, espanhol ou russo. Já não sei mais nada. Só sei que faço uma curva fechada na minha vida e sem ainda poder enxergar o que pode vir, sei apenas que algo já está lá. Não será uma vida vazia. Será que seus sonhos se juntam aos meus para isso?
Termiando o cigarro, o café já gelado também finalizo, e mais alguns minutos perdidos sem que eu estudasse. E de repente, um grande amor tremendo (e trêmulo) pela fugacidade inerente de todas as coisas. Acompanhado de uma vontade de que esse calor permaneça. Óh céus, como será o seu cheiro? Um fogo absurdo determinando veredas pelos amontoados do meu até então, deserto gelado.

3 comentários:

Philosophie de la guérilla disse...

Sera que os sonhos ja nao estao juntos?
Ou que sao os mesmos sonhos, so que vistos de dois mundos diferentes?
Teremos corajem? ao mesmo tempo possuir e ser possuido...

Fabiano Rabelo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabiano Rabelo disse...

eu eu fico aqui pensando... quem é que não tem um deserto gelado? não é que você seja igual a todo mundo não. é que não há pessoas diferentes, entende?
"não há crimes nem pecadores, apenas um bando de famintos"
no final pouco importa o que a gente fez até se apagar o cinza prata.