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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

oh, shit.

E será possível parar
de me ater aos resíduos?
O guarda da esquina acena para mim e avisa
que o ser humano há milhares de anos parou de rastejar,
e a jovem senhora que atravessa o mesmo corredor no supermercado
insiste em me alertar que andar para trás é prejuízo,
além disso todos os adolescentes da pracinha não conseguem parar de rir
quando eu passo perto e aviso
que mais uma vez estou indo
eu estou indo...
Ainda não sei para onde, mas... deus, eu sinto que estou indo,
não sou como eles, nunca fui,
acho que escapei dos milhares de anos evolutivos,
quem sabe ainda sou apenas uma macaca a procura do alimento,
quem sabe apenas foi a poesia
que tornou possivel que eu falasse...
Serei eu, um mamute extinto? Uma arara rara, alerta para todos,
eu
estou
em
extinção.

A moça do caixa da padaria me ensina a usar as pequenas coisinhas eletrônicas,
mas eu continuo sem entender
porque trabalho tanto mas nunca tenho dinheiro,
ou por que será que eu li tanto Platão
se as pessoas querem mesmo é falar do Big Brother,
ou ainda
por que é que eu escolhi amar
se o escândalo é quem realmente transforma
até uma ameba em estrela impossível?
Dinheiro nas meias e pronto, está comprada a passagem ao paraíso do esquecimento,
dólares no bolso e... na hora de fingir acertamos as contas
vamos atirar todas as pedras na moça de vestido curto...
sua beleza deve ser castigada no lugar da nossa insensatez.

Enfim, aquele senhor dentro do carro já está achando que eu
estou a tanto tempo assim parada diante do semáforo porque farei
algum tipo inédito de malabares,
mas não,
tudo o que eu realmente sei
é que nasci errada e para
os errados olhares.
Talvez essa seja mesmo
a única coisa certa de minha vida:
tomar sempre
o caminho contrário.

Será que você
vai estar por ali quando eu
abandonar tudo e decidir me isolar
numa montanha gelada bem
no interior da Alemanha?

ok... far beyond driven...

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