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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Conto ficção parte dois.

Soprava insistentemente a colher cheia de sopa com o receio de que o líquido pudesse vir quente de mais à boca. Não seria agradável. Sempre detestei queimar os lábios. Senti o alívio do caldo na minha garganta ferida. Mas eu estava atônita ainda com a recém descoberta. Estou mesmo apaixonada. E não é pelas mesmas razões de sempre. E ele me falava da simplicidade da vida, como se isso fosse mesmo simples. Naquele momento eu desejei que fosse. Que eu pudesse mesmo dar o primeiro passo e ultrapassar os limites do braço daquela cadeira e dar uma mordiscada na sua boca cheia de palavras e suco de limão. Estou sendo transportada para aquele momento de novo. A água salgada e aquecida derrete as bolas infecciosas no meu pescoço que luto contra. Meus olhos recordam a anatomia surpreendente de seus cabelos. Os cabelos dele. De novo, a cabeleira loira. De novo a cafeteria, de novo um amigo nos interrompe. E eu estava prestes a dizer uma burrice. Você ia me condenar, ia me exigir que pensasse de novo, ia me empurrar para fora da sua toca. Agora mesmo você está pensando: garota, É TUDO MUITO SIMPLES. VOCÊ NÃO FEZ NADA PORQUE NÃO QUIS. É estranho como você não reclama de nada, nunca. Mas eu ia dizer:

- Você pode achar ridícula, mas eu estou...
(pausa sem fôlego, lembro de tanta coisa, da minha conversa com meu ex, de como eu me senti atraída por aquele colega de faculdade, de como eu estava rouca por pura estupidez minha, lembrei da bagunça do meu quarto, e pensei se você ia mesmo gostar do fato de namorar uma mulher que acha o máximo dançar feito uma ídola do hip hop quando está sozinha no quarto. Lembrei até dos quadros de Van Goh pregados na parede do Museu de Arte de São Paulo. Resumindo, senti-me uma estúpida).
... Eu beijaria você e tiraria minha blusa pra você tocar meus seios agora mesmo. Já tem dias isso. Dias. Você dentro da toca do coelho, eu de quatro e de mãos atadas diante da porta. Sim, eu sei que quem amarrou estas cordas em mim foram meus próprios olhos deseducados de si mesmos, mas me dá esse desconto hoje. Estou apaixonada. Guarda esse amor fajuto com você como se fosse um souvenir. Fica assim. Água fervendo na corrente sanguínea combatendo a flacidez frígida dos seus olhos. Toneladas de ácido prendendo as palavras. Mais uma vez: fica assim.

8 comentários:

Altair de Oliveira disse...

Hey Lu! Você é mesmo deliciosa de ler, mocinha! Uma surpresa alentadora saber deste teu cantinho tão rico. Um prosa tão poética, arguta e cheia de apetites! Uma poesia tão prosa trajada numa melancolia tão chic!
Creio que ganhei a semana...hê!

Beijão, te cuida aí preciosa!

Samantha Abreu disse...

Muito bom!
uma coisa ardente, pungente.
dos meus.

Um beijo, querida!

Anônimo disse...

Hahahahahahahaaha...

O pau cai a folha! O trem pegou, o circo pegou fogo.

Hahahahahahahaha...

Bem escrito e na veia.

Beijabração.

Cássio Amaral.

Unknown disse...

Lu,
passei, li, circulei e gostei muito. Gostei da sua escrita, ela tem fora...

Um beijo,

Marinalva

Priscila Manhães disse...

Ei, Lu, você está escrevendo a cada dia melhor.
Beijo pra você, bonita.

Cult 28 disse...

Gata... sem folego aqui... corajosa você!!! Por isso te admiro!

Blog maravilhoso. Mas a vida é assim... esperar pode as vezes prolongar o prazer, pode ser até melhor... mas não pode passar do ponto!

Se é que você me entende.

Mi casa és su casa!

Sodade!!!

Anônimo disse...

Você transmite o intenso com uma adorável simplicidade, como se isso fosse mesmo simples... é tocante! Sinto uma empatia deliciosa e ao mesmo tempo trrrrum-plaft mental vibrante.

beijos, querida!

poeta quebrado disse...

é bem bonito, mesmo.
a parte 1 e a 2.

e as vezes da saudade.