- Lucianne Menoli
- "Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Um dia a história cai.
A porta abriu e saiu lá de dentro uma escada rolante. Linda, brilhante, iluminada, quase surreal. Delirei ao me imaginar subindo naquela planície sobreposta que mais parecia de uma pelúcia metálica, de tão fluida, tão escorrida, tão causa e conseqüência, tão simples, tão desnudada, tão afluente. Sem barreiras. Camadas e camadas sucessivas de facilidade. Mas não tive coragem de subir. Quando vi, meus pés temerosos e cegos caminharam sem pressa rumo às escadas convencionais. Cheguei apenas no primeiro patamar e parei, calada, olhando os tênis que sob mim se diluíam. Foi aí que entendi: meus olhos nunca doeram ainda. Voltei. É preciso ver ainda muita coisa. Na realidade, não existem linhas sobrepostas a não ser as que minhas próprias mãos puderem traçar. Há vidros no chão. Muita coisa anda se rompendo. Quem sabe eu descubra ainda nessa mesma noite que até hoje eu jamais amei? Seus olhos agora chamuscam. Será faísca ou pena?
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