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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sábado, 2 de agosto de 2008

Saudades de alguém que não existe.

Estou batalhando para que você possa passar a fazer sentido, entende?
Sim, mesmo você continuando com esses telefonemas fora de hora, porque nunca é a hora, é sempre algo além do que você poderia querer ou permitir que rompesse a desonesta parede de tijolinhos vermelhos que te separa de tudo aquilo que ainda nem sequer imagina.


Nada mais dolorido do que lidar com pessoas que não nasceram ainda.


Estou lutando para que uma pessoa entenda que ela inevitavelmente sente, percebe?
Os olhos estão lá, estatelados, olhando para o mundo como se ele fosse um espetáculo de circo cansativamente assitido por todas as estúpidas crianças do seu preconceito, mas a vida mesmo está acontecendo de um lado que é tão de fora quanto o próprio pensamento. Está tudo lá, respirando, colhendo amostras. Bastaria ver as pessoas em salas de espera de pronto socorro. Sim, a maioria delas ali acabou de nascer. Descobrindo finalmente a matéria fugaz que constitui nossas queridas certezas. Mas é assim que você prefere viver. Como se sua carne não fosse o papel frágil no qual risco a minha história, minha tinta perfurando seus poros, quer você queira, quer você não queira.

Porque o que eu posso imaginar não precisa jamais deixar de existir. Você não dorme desacompanhado há muito tempo já. Sempre tem uma mão minha ali, desvendando com invento aquela característica de pele que só o toque íntimo e intimidado conhece. Tudo o que eu fiz até hoje foi isso, seu idiota. Imaginar. Não, o que você chama de realidade não é bem isso que eu tenho nas minhas mãos agora. Essa garrafa vazia na minha frente, por exemplo. Vou lançá-la ao chão. Quem observar os cacos, poderá ver ainda uma garrafa?

Do mesmo jeito foi tudo o que eu lambi em você naquela noite. Quem observa agora os meus pedaços pode dizer que tipo de mulher eu ousei ser um dia?

Calma, respire você também. Estamos nos libertando a cada desencontro. Bom, pelo menos é o que eu acho de uma festa de Natal vazia, sentada no meio-fio vendo os carros passarem lotados de crianças: se ninguém me carrega... eu posso, sofregamente, pelo menos viajar com menos peso.

Um comentário:

Zilmara Dahn disse...

"Nada mais dolorido do que lidar com pessoas que não nasceram ainda."

Arraasa!

teu blog tá muito foda! Muito lindo, como sempre.

e minha parede mandou um beijo.