Consolo-me com mais um cigarro.
Você teve toda razão, prima,
quando disse que fumaça era companhia.
Os anéis cinzentos dela quase dialogam.
E na memória exausta
tudo e todos se tornam valiosos.
Hoje lembrei uma música de Cazuza
porque
acordei chorando. Tremendamente.
É que finalmente tudo pode dar certo,
e isto vai significar também
que ficarei cada vez mais
definitivamente sempre longe.
Não, eu não estava pronta.
E ainda não estava.
Pronta para largar
aquelas paredes laranjadas pintadas
na parede da cozinha,
pronta para
suportar a perda de uma irmã,
pronta para superar
tantos supostos amores falidos.
E menos ainda
para viver agora na realidade, o sonho,
e descobrir que o amor, quando de verdade,
assim como a liberdade,
tem um gosto assim meio-amargo
de final de festa,
sabor de resto de cerveja no fundo do copo,
algo como
um beijo com aquela língua grossa
de ressaca maturada
depois de uma soneca
em algum fim de tarde sem poemas.
Não, estar sozinho com as rédeas da vida
"finalmente" nas próprias mãos
não tem gosto de cereja ou amenidades.
Por mais independentes que nos tornemos
NADA consola mais a alma
que o abraço da mãe dolorida
que só existe ainda porque é feita de pura
esperança, resignação
... e saudade.
A distância,
muitas vezes,
mais estrangula do que permite.
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