Hoje irei mais longe porque o dia começou mais perto. Por isso hoje acordei cedo, passei maquiagem, cuidei de mim e vou sair. Porque hoje o dia merece ter diferença. Hoje o espelho não merece ver seu rosto refletido na sombra dos olhos. Ou talvez ainda mereça, mas que seja então o seu cheiro. Isso, o cheiro de sua pele sobre mim. Hoje merece ser diferente porque há dias não falo de outro assunto. E nem os filmes falam. Nem as cervejas, nem as drogas, nem os beijos roubados ou o tabaco excessivo. Tudo tinha ainda aquela sua unha fincada, a pequena verruga, a pele clara que se esconde sob a pulseira apertada, seus colares de borracha e seu anzol atarraxado em meu peito; meus seios do tamanho exato para sobrar em suas mãos... desmedidas. Tudo tinha... a sua marca. Por que agora vai ser diferente? Porque a lua hoje vai entrar pela janela ao meio-dia, as pessoas vão se olhar nos olhos, coelhos de pelúcia vão cair do céu, as árvores vão soltar bebês e, por que não, a vida vai passar a ter sentido. Por isso hoje eu acordei cedo, passei minha maquiagem e vou sair. Colar de prata no pescoço, par de chinelos de dedo nos pés. A caixa de cigarros eu vou deixar por aqui. Ainda é muito cedo para arriscar outro infarto. Para isso bastaria relembrar de você. Não é mesmo? Não, não e não, não você. Hoje não.
(...) Silêncio. Pausa crítica.
Quer parar de invadir minhas pobres cordas vocais? (Respiro fundo, ainda quero falar) Até meu ciclo menstrual adiantou-se. Todos os meus hormônios querem entender o que aconteceu. Mas não. Hoje não. Hoje o dia merece ter diferença. É. Ainda é o sol lá fora. Brilhando, cheio de escárnio. Vou sair, e esse é o meu carma: saber que amanhã... a dor já estará de volta. Ai. (Pausa. Pena.) Acho que já... voltou.
2 comentários:
Lú, retrato da insana tentativa de ser outra, de ser de outro, de pertencer a si e não àquele.
Mulheres lutam contra isso de forma poética sempre: a maquiagem, as fantasias, a surrealidade.
(talvez alguns homens também... não sei).
Mas a forma como as palavras de uma mulher podem nos tocar quando um tal sentimento ferve, é incrivelmente quente. Mas um quente que não queima, apenas se faz sentir (não, não é morno).
A todo momento me vi perdida pela casa, do espelho à sala, da sala ao quarto. Um sentimento de perda e de luta por reconquista... reconquista não do sentimento de ter, mas do sentimento de ser.
Lindo.
Um beijO!
Anaïs?
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