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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

domingo, 22 de junho de 2008

Pra sempre Primavera

É espantosa a forma com que a vida tem me abraçado pelas pernas, como se eu fosse tentar fugir. Como se eu sequer merecesse tentar fugir. Sim, porque a fuga não é dádiva comum. Só poucos, muito poucos, podem se dar ao desfrute e ao deleite de ter todas as suas falhas esquecidas.
A cada rosto que me encontra na rua com o seu ligeiro "nossa, há quanto tempo! tudo bem?" reconheço a minha vergonha. E aposto mais uma vez na mais nova e idêntica maratona que estou prestes a re-entrar. Muito cansada, mas com toda aquela costumeira disposição para perder de novo. Sim, porque a vida tem mesmo esses percalços. De tentar, coagir e suprimir o grito toda vez que a banda que toca do seu lado exibe alto demais os acordes dessa disputa. Estou travando uma luta um tanto quanto como aquelas de boxe com meus anseios afogados. Mas...
Um rosto na Bahia, e pronto. Já estou animada de novo. Como se fosse fácil arrumar as malas por aqui toda vez e trocar Porto Alegre pelo Nordeste. E chega, chega de palhaços cobrindo meu rosto com travesseiros toda vez que eu penso que finalmente consegui esquecer ou perdoar ou inverter ou inventar os meus fracassos.
Não, não estou disposta a lembrar daquelas inúmeras tardes de malabarismos e como eu disperdicei todas essas chances porque eu pensei que a vida era uma coisa da qual se pudesse se orgulhar de tê-la nas mãos. Mas a gente nunca tem nada nas mãos. Exceto o sangue com o qual a gente limpa as fraldas de quem chega, já com ares de quem manda.

Mas o pior não são esses. Os piores são os que já estavam aqui desde o início, desde aquela noite, meu deus, em que todo mundo achava que eu iria pra frente, e eu tinha mesmo tudo pra ir pra frente, até mesmo quando bateram aquele banco nos meus dentes, sim, eu tinha tudo pra ir, tudo pra ir, tudo pra ir, tudo pra ir... mas não fui!
E agora ficam esses palhaços rodando suas bolinhas e olhando pra mim com o ar atrevido que aprenderam das crianças e me dizendo sem falar coisa alguma que:

EU FRACASSEI.
Sim, eu sou a lúnática do paraíso. Ainda tem tanta gente tentando pegar esse elevador que eu peguei, que arrebentou o cabo não sei em que ponto da tragetória! Só sei que a última imagem que tenho é a dos seus olhos tentando me dar um beijo depois que a porta do elevador fechou e você queria me agarrar enormemente antes que a gente chegasse no apartamento de sua mãe. Uma rua que ainda vai se chamar Guarani por um BOM tempo, mas eu não. Eu não vou mais me chamar Vanessa. Nem Roberta, nem vou tentar ter o nome daquela estúpida inimiga de infância.

Dá tempo ainda de decorar a senha daquele cofre no banco. Aquele, onde demorei a guardar essa saudade. Do lado dela tem uma caixinha contendo ainda a minha vergonha. Lunática tentativa, eu sei. Mas vai dar certo. Estou voltando. E pode ter certeza de que dessa vez, vai ser até onde durar esse PRA SEMPRE PRIMAVERA.

3 comentários:

Zilmara Dahn disse...

Ai Lu..cê é tão poética!

lindo texto. e o blog também. queria saber fazer metade do que vc faz com ele.

bjimm

Anônimo disse...

Oi Luciane. Achei lindos os seus poemas. verdadeiramente. Você é talentosa. Engraçado que vc fez parte dos meus piores pesadelos por muito tempo. Amava o seu ou meu homem. Não sabia de quem ele realmente era. Mas era tão meu, porque seu? Mas seria justo com vc? E se eu tivesse no seu lugar? E qual era o meu lugar? Quanto tempo tendo vc como minha sombra, até mesmo quando vc saiu de cena e eu definitivamente entrei, com todo aquele amor que sempre explodiu dentro de mim. Uma raiva, um medo, um carinho, um não sei lá o que muito esquisito. Eu te odiava e te amava, mas não tinha razão para nenhuma das duas coisas. Queria te ver, te conhecer. Queria que vc morresse no meio dos meus ciúmes. Queria que vc não chorasse. Queria ser vc. Queria que vc soubesse que não era pirraça, só amor, muito, puro. Queria que vc se danasse. Queria tudo. E não sabia o que queria, porque vc não precisava fazer parte da minha história, não tinha nada com isso, mas fazia. Hoje que nada disso importa mais, que finalmente as nossas histórias não tem nada em haver uma com a outra, como talvez nunca tiveram mesmo, eu te acho, assim, sem mais nem menos. Num site titetê, acho que é isso. E de repente aquele nome. E de repente um codinome. E de repente o blog. E de repente "Roberta" em um dos poemas. Porque isso agora? Que coincidência! Não sei o que eu signifiquei pra vc, ou se nada signifiquei porque não era eu que deveria significar mesmo. Mas a vida é engraçada. Eu li e admirei, com a alma poética com que vc pede que leiamos seus poemas sem levá-los a realidade. Que esquisito e que bom. Me deu uma vontade de te dizer que eu sou a Roberta, e que eu acho que sou eu aí nas suas palavras, e quem foi vc pra mim, ainda que sem poesia. Eu sabia, no fundo do meu coração tão subjetivo, que um dia nos cruzaríamos, nós, as "inimigas" que tanto se atormentaram e que nunca se viram, se falaram ou tiveram qualquer chance de ser qualquer outra coisa. Eu tenho um sentimento bom por vc que eu jamais saberei de onde vem. Um abraço e sucesso. Vc escreve muito bem.

Lucianne Menoli disse...

Nossa, só estou vendo esse comentário hj, 8 set. Meu deus, bom, é legal saber q as pessoas ficam pensando tanto na gente assim. Eu sinto muito a todos, mas eu particularmente, sou mais desligada.

A "Roberta" do texto não era vc, infeliz coincidência, eu sei. Mas fazer o quê se aquilo q chamam de Deus tem tão pouca criatividade assim. E o pior é q o contexto das palavras ali ficou mesmo parecendo q era vc. Céus, a verdadeira Roberta q sim, essa sim é minha inimiga, saiu impune, e vc achando q o assunto, anos e anos depois, diga-se de passagem, ainda era contigo.

Nunca tive pesadelos com vc nem sequer te considerei minha inimiga. Aliás, eu só tenho a vida maravilhosa q tenho hj pq vc apareceu. Senão, eu estaria provavelmente no segundo ou terceiro filho de um cara q nao tem nada a ver comigo, e ainda por cima sendo dona de casa em Itajubá. Nada contra sua vida e muito menos contra o marcelo. ele só nao tinha nada a ver comigo, e vc sabe disso melhor q eu.

obrigada por todos os elogios, e nao posso deixar de lançar a pergunta: já q de ambas as partes nao tem mais problemas, podemos ser sinceramente amigas?

espero sua resposta.