Minha foto
"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O vazio invencível

Custa muito caro ser perfeita, e interromper o processo da nostalgia. A ousadia de continuar a ser eu mesma, mesmo depois de tantas formulações errôneas, tantas descobertas falsas, tanto cientificismo exacerbado. Palavras que compliquei para que o simples não fosse mais possível. Porque o simples NUNCA é simplesmente possível. E o objeto de toda minha confusa memória é esclarecer para mim mesma que não há motivo para preservar-me virgem.

E olhei para os seus olhos, talvez pela última vez pela tangente daquele momento. Momento? Estávamos de fato tendo um momento? Por um instante cheguei a crer que você sequer esteve ali. Digo, algum dia. Foi tudo um fruto apodrecido da minha... digamos, alma despida de ideais conscientes. E formei a ti que poderia ser um homem. Sobreviveríamos até às vagas selvagens de todo esse mar que travamos, mas qual vantagem teria se não nos cantassem? Não somos heróis, ridícula insistência.

Não estou podendo mais chorar por isso agora. Nâo vê que a banda já chegou mais cedo? Colocaram o baixo já plugado na tomada, e o guitarrista de dedos compridos, punhos frenéticos e voz bem colocada pode estar agora já começando a pedir que você reacenda as velas do velório. Ando tomando todo o seu café, enquanto foges pela avenida vestindo apenas as roupas de baixo. As sedas que jamais usamos sendo todas quase rasgadas, mas que mesmo assim tentamos tanto esconder. Contrabaixo no meio das pernas, nunca vou esquecer seus olhos. Se é que um dia eles sequer existiram.

Nenhum comentário: