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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

cold blood e analgésicos.

Eu poderia fotografar meu manso desespero agora.
Como se de repente tudo ao meu redor estivesse desmoronando,
um terremoto terrível, mas que só eu enxergo
e é impossível
chorar.
Tenho medo da minha carne agora.
E do que ela será capaz
de fazer comigo.
Fui violentada. Mas os braços eram os meus.
Por que eu não gritei
não chamei os guardas
não implorei a polícia
nem sequer acendi as luzes
só fumei a porra do cigarro
pedi mais um café
e esperei, esperei, esperei com vontade.
E veio, aquela violência toda, meu deus.
E antes que eu pudesse soluçar
"non, rien de rien, non, je ne regrette rien..." *
eu já sabia, sempre soube
que toda aquela estupidez deliciosa
ia terminar em poema.

Não sei daonde eu tirei aquela faca de sobrevivência
quando eu me dei o primeiro soco no estômago.
Só ficou lá
aquela mulher caída, olhos estáticos,
eu olhando para ela,
uma poça enorme de poesias escorrendo.
Ia ser complicado explicar pra polícia
que eu não sabia mais onde estava
nem a faca, nem o cara, nem o estômago,
nem eu, nem a poça.
Ah, tudo o que eu precisava era apenas terminar o café
e pedir uma aspirina com uma boa dose de cachaça.
(Ok, pode ser anador, dorflex, paracetamol... com cerveja)
Comer um tomate-maçã,
aceitar uma colher de xarope anti-tosse infantil
e nunca mais tentar matar
paixões a sangue-frio.
"... je repars a zero..." **

* "não, nada de nada, eu não me arrependo de nada"
** algo do tipo: "vou voltar a estaca zero"
Versos da célebre canção eternizada pela voz de Edith Piaf, "Rien de Rien"

5 comentários:

. disse...

Apenas mais uma prova de que vc escreve bem pra caralho.

Kill Helena disse...

a analogia de "aspirina com pinga" me inspirou haha.

achei que havia perdido o tesão em escrever mas, ao retornar aqui, acho que o reencontrei.

obrigada.

Anônimo disse...

Ah a humanidade...
A carne é o jeito mais facil de sucumbir a algo e exlpicar o fato de uma forma que exclua a culpa de ter sucumbido.
Muito instigante seu poema. GOstei.
Como é estar nas nuvens e sentir uma brisa de caos ao mesmo tempo?

Lucianne Menoli disse...

Boa pergunta.

Lucianne Menoli disse...

Aliás, Aristóteles fala um pouco sobre isso na "Poética", ao descrever o que ele entende por ser a catarse. Bom, tem a ver.