
E essa coisa de ficar tamborilando os dedos na mesa, pensando algo grandioso antes de lavar louça, pendurar a roupa, fazer macarrão. Que coisa mais estúpida, meu deus. Eu to sempre pensando grande, como se minha vida estivesse prestes a significar muita coisa. Tem hora que morar sozinha é uma merda por causa disso, gasta-se horas pensando pensando, e como não há o olhar acusativo de ninguém e nem perguntas do tipo "vai matar aula/ensaio/trabalho de novo?" então fica fácil demais burlar as próprias regras e jurar pra mim mesma que reler Memórias do Subsolo é sim mais urgente que estudar pra prova da semana que vem, e nisso de eu to trabalhando, eu to me cuidando, to dando um tempo pra mim, minha casa vai se tornando também cada vez mais esse quartinho num subsolo inabitável até que reler o livro seja mesmo urgente, sendo agora então uma questão de sobrevivência. De possibilidade de coerência, entende?
Porque sempre que eu leio Bukowski fico sabendo que é nas vezes que faço coisas que menos gosto que sou mais sincera. Percebo que foi naquela transa mais ruim que eu fui mulher pra valer mesmo, porque tive de fazer um esforço do inferno pra achar graça naquilo, e de repente é absurdo TER que achar graça, e de repente se começa a rir na cara do sujeito, e de repente vai tudo pro espaço, e a única coisa que realmente se lamenta é o desperdício de meia garrafa de vinho naquilo, e é fim de mês, vamos ter que esperar até o quinto dia útil pra comprar outra. Mas tudo bem se continuamos amigos.
E é essa coisa de estar ficando mais seletiva e não dar conta, simplesmente não dar conta, de tomar vinho vagabundo mais, primeiro que eu não tenho estômago, tenho um poodle tísico e hemofílico no lugar, segundo porque já que é pra beber sozinha, que seja coisa boa, e se for pra beber junto que pelo menos não seja o vinho o motivo da dor de cabeça no dia seguinte.
Mas é isso. E de aula em aula que deixei de ver por razões que só a razão desconhece, acabei com o semestre, mas a única pessoa que entende isso de verdade está indo embora pra Londres no fim do mês, e apesar dele ter me chamado de MarLU Brando (quantas mulheres nesse mundo tiveram esse luxo?), e apesar dele ter me enviado o poema mais pungente de todos pelo telefone, apesar de eu ter gravado a apresentação do Requiem de Mozart pra ele ouvir no celular, apesar da gente ter ficado horas tocando nos cabelos um do outro, apesar do marmitex de boteco que dividimos, e das formigas dentro da calça dele e da grama grudada na minha canela, a gente tem essa coisa da decisão madura de nunca mais se falar, e estamos certos, porque nunca fomos amantes, é uma amizade que poucas pessoas, não, poucas não, nenhuma pessoa entende, e é nesse ponto que voltamos a ser adolescentes, porque essa coisa de ter coisas que os outros não entendem é um saco, precisamos de testemunhos sociais senão a "coisa" vira um puta Último Tango em Paris, e por mais que seja interessantíssima a referência a gente não vai chegar ao ponto da manteiga ou das unhas cortadas no banheiro. Não, porque volto a dizer, não fomos nem nunca seremos amantes, então é melhor que a gente vá mesmo pro espaço, e volto mais uma vez a Bukowski e às transas engraçadas, às garrafas de vinho, sim, porque já é começo de outro mês e ontem saí pra dançar e me deu agora uma fome daquelas e enquanto eu lembrava da noite atropelada, do cara que em meia hora eu já tava chamando de amor e ele também, e eu tamborilava os dedos em cima da mesa, pensando se um dia eu fosse pra Londres, mas antes disso eu pedi a pizza.
Há tempos não como pizza, e como eu finalmente consegui emagrecer acho que eu posso. To fazendo sucesso assim, nem tão magra mais, então vamos manter a escalação porque é final de campeonato, meu bem. E nossa, sei que esse texto foi uma merda completa, mas valeu pelo esforço. Eu só queria que as pessoas entendessem, voltando um pouco no pensamento adolescente, que os momentos em que sou verdadeiramente sincera é quando estou fazendo compras com pressa, pegando ônibus lotado, lavando panelas ou limpando fogão, tendo orgasmo, lendo aquilo que gosto, beijando alguém que me agrade, conversando com amigas de perto, dando a primeira cantada numa mulher ou ficando altamente alcoolizada com duas long necks de skol. Ou seja, postar coisas no blog não está na lista.
Tô te dando aquela piscadela de canto de olho, rindo muito do termo "piscadela", porque sei que irrita, e é aí que eu te pergunto: o que fazes por aqui, Brutus?
3 comentários:
o que dói não é o poodle tisico reclamando do vinho, na pior das hipóteses - ou dos vinhos, afogao-o na quantidade.
o que dói é ser assim, incrivelmente verdadeira e sincera, e por vezes ter quase certeza que não se é boa o suficiente para alguma companhia mais permanente...
isso acontece quando os pensamentos grandiosos se esgotam, e sobra você, a sua casa, e todas as coisas que vc tem que fazer - até mesmo ir pra enfadonha aula na faculdade.
- te entendo, perfeitemente! completamente!
caralho.
gostei mais do que o normal dessa "merda completa".
será que todo mundo que mora sozinho e lê geração beat se sente da mesma maneira?
sincero eu sou quando apertado no onibus ( nem a espera ).
*li só um livro do H.miller, que por sinal nunca tinha ouvido falar. parece que é um dos primeiros que ele escreveu e só foi publicado mais tarde. Moloch, conhece? não é genial, e aceito indicações.
A sujeira vem mesmo do velho Buk.
ah, eu tentei isso uma vez.
me rendeu uma viagem maravilhosa e dois anos de depressão.
será que vale a pena?
a contragosto, responderia que sim.
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