Minha foto
"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um trecho de "Memórias do Subsolo", Dostoiévski.

"Mas, senhores, quem é que pode vangloriar-se das próprias doenças e ainda procurar causar com elas um efeito?
Aliás, que digo? Todos fazem isto; é justamente das doenças que se vangloriam, e eu talvez mais que ninguém. Não discutamos; a minha objeção é absurda. Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença. Insisto nisso. Mas deixemo-lo também por alguns instantes. Digam-me o seguinte: por que me acontecia, como se fosse de propósito, naqueles momentos em que eu era capaz de melhor apreciar todas as sutilezas do 'belo e sublime', como outrora se dizia entre nós - , porque me acontecia não apenas conceber, mas realizar atos tão feios, atos que... bem, numa palavra, atos como os que todos talvez cometam, mas que, como se fosse de propósito, me ocorriam exatamente nos momentos em que eu mais nitidamente percebia que de modo algum deveria cometê-los? Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é 'belo e sublime', tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo. Porém o traço principal estava em que tudo isso parecia ocorrer-me não como que por acaso, mas como algo que tinha de ser. Dir-se-ia que este era o meu estado normal e que, por fim, perdi até a vontade de lutar contra este defeito (...) chegava a sentir certo prazerzinho secreto, anormal, (...)
Remordia-me então em segredo, dilacerava-me, rasgava-me e sugava-me, até que o amargor se transformasse, finalmente, em certa doçura vil, maldita e, depois, num prazer sério, decisivo! Sim, num prazer, num prazer! Insisto nisso. Se abordei o assunto, foi porque desejo insistentemente saber ao certo o seguinte: terão outras pessoas semelhantes prazeres?"


a quem interessar, tradução de Boris Schinaiderman, da ed.34.

Um professor meu (Marcelo Castilho) uma vez me disse que ele conhece as pessoas pelos livros que elas RE-leram. Talvez ele esteja um pouco certo. A volta ao texto tem um significado mais intenso que a curiosidade inicial. Ou pelo menos assim também me parece.

8 comentários:

. disse...

Tudo tao lindamente e propositalmente desordenado para a foto, rs.

Anônimo disse...

Poxa, os três únicos livros que lembro ter relido foram:

O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry

Alice no país das Maravilhas, Lewis Carrol (um dia, bêbado, jurei que tinha sido ele que escreveu os contos de Nárnia)

Confesso que Vivi, Neruda

Isso me faz o que?

Anônimo disse...

somos todos masoquistas? ai ai

Lucianne Menoli disse...

Sim. E sádicos. Ao mesmo tempo. Cada um, com suas doses.

Anônimo disse...

atsc tsc tsc chorar pelo leite derramado me parece uma burrice e tant, inda mais se a gente procura o que acha

Lucianne Menoli disse...

Chorar pelo leite derramado???
ãh?

Anônimo disse...

Mas, senhores, quem é que pode vangloriar-se das próprias doenças e ainda procurar causar com elas um efeito?

é que antigamente falava-se q o não tem remédio remediado está...

Kevin disse...

Tenho necessidade de tragédia, não falo por ninguém, mas sei o que sinto e desconfio que todos sejam parecidos. Escrever no singular é estranho, pois, escrever no singular é não propor coisa alguma, pois todas as idéias que fluem de mim já foram propostas. Sinto uma vontade irresistível, eu desejo, sinto que todos os meus atos são influênciados para culminar neste ponto: ser vitima. Se por exemplo, chego à minha republica, e ao entrar, andar pela casa, reparar na sujeira e na bagunça, dou de cara com a porta do meu quarto destrancado [eu havia trancado], abro a porta lentamente – como se fosse para criar o suspense -, imaginando a cena seguinte - quase escuto os tambores-, eu desejo que tudo esteja o mais fodido possivel, quero ser prejudicado, alguem precisa ser culpado! E veja só! A tragédia! Sinto o gozo. Glória!