Num gesto hábil ela se levanta para ir ao banheiro lamentar em segredo o acontecido. Ele não estava mais ali. Com que poderes ela o havia perdido? Com que força sinistra ela havia deixado o acaso inverter o tabuleiro... E que falta de planos, que desespero. A ausência dele doía nela uma certa fraqueza. E após ridícula caminhada exaustiva sob a chuva, ela havia concluído que a súbita tentativa de perseguição infundada serviu apenas para lhe estragar os cabelos e incutir em seu ânimo uma incoercível sensação de fracasso.
E se ele voltasse no dia seguinte, como estariam aqueles cabelos? Arrependeu-se da mensagem de última hora. Por que quase sempre tão impulsiva? Sentiu que precisaria de uma nova sedução para vencê-lo. Arrependeu-se de tudo. De tudo não. Ela ia perseguir sim, ainda mais uma vez, aqueles braços loiros, penugem linda de se perder horas olhando. Lembrou que a parte debaixo das costas dele também era coberta por esses mínimos pêlos quase translúcidos. E com que profundidade ele não dormia. Nunca achou que um homem daquele pudesse ser mesmo seu escravo completo por um dia. Ela pensou em se matar adicionando veneno no sorvete, mas sua alma de mulher nunca vencida a fez acreditar que houve um banho de perfeição inundando aquele dia. E com a mesma intensidade que o trágico inundava este. 10 minutos a menos e ela teria visto aqueles dedos tocar a xícara de café. Não mais. No lugar disso estava agora no banheiro, mãos tapando o rosto, quase a estapeá-lo, e a alma tocando um acordeon para um tango de Piazzolla. Primeiro Tango. Cada nota expressando uma vontade absurda e fortíssima, fortíssima de não ser mais nem tão burra nem tão dele. Vontade de ser aquela, aquela que ela mesma sufocava na pia todos os dias de manhã ao lavar o rosto. Porque amar não é coisa para inteligentes. Amar é um desabafo, é vestir um terno apertado, é correr uma maratona de salto Luís XV. Amar exige uma certa estupidez crescente, algo oposto ao que lhe exige constante, sua poesia. E a arte mestra de ser desapontada era combustível e forma para os seus olhos convencidos de ver o mundo com mais cautela. Como escrever se estivesse agora acariciando tênue as penugens daquele corpo?
(A falta dele era mesmo para que algo em mim sobrasse? Talvez sem desencontros não houvesse literatura, pelo menos não aquela capaz de naufragar as pessoas salvando-as. Eu seria capaz de ter um orgasmo virulento só de lamber novamente seus mamilos rígidos num rosa carne fresca.)
Ela sai do banheiro e volta à mesa, tudo isso em segredo não durou mais do que o tempo de uma música. O café já tinha esfriado completamente como de costume, quem conseguiu fumar o cigarro inteiro foi o cinzeiro prata, ela ajustava agora o lenço no pescoço, o anel e a blusa, refeita, mas estava dentro dela ainda, fixa, agachada e imutável, a certeza de que ela era a própria tristeza de tê-lo perdido.
(13/11/2008 - pela manhã)
6 comentários:
Sentiu que precisaria de uma nova sedução para vencê-lo.
não seria melhor amá-lo?
não me fiz entender ainda que tenha provocado algo que mereceu um agradecimento. só disse que não concordava com a sua forma de ver o amor relacionado a "vencer, mas, tem razão: é bom não amar alguém que não nos ama mais, como é também bom acreditar que existe vida além (poetas fazem isso muito bem também)
Bom, eu sempre agradeço. Acho q é o meu lado Bob Esponja. E nao sei, acho q isso nao deveria ser um problema. Mas nao sei bem por que, eu pareço ter o dom de fazer as pessoas acharem q tudo o q eu falo aqui é pra ser levado MUITO a sério. Quero dizer algo, simplesmente, senao eu nao colocaria online. E como estou espontaneamente me expondo... acho bom responder e agradecer coisas legais q aparecem. E nao creio q NADA na internet seja capaz de ter o tempo do merecimento verdadeiro. RElaxa. Só gostei do coment, coisas q me provocam. A idéia de ama-lo independentemente da presença me pareceu poeticamente salutar.
rs..assim não vale
deixou só o que te interessa e olha que eu nem quiz incomodar, estava mesmo só de passagem
já melhorou o humor? espero q sim!
Ah, tava meio poluído. E humor é sempre coisa instável por aqui.
Sei que é dificil entender as pessoas e o porquê elas fazem determinadas coisas... acredito que por ama-lo a grandeza de um sentimento que não podia definir... por isso decidiu eterniza-lo para que a cicatriz do fim, não fosse tão grande. Fica uma leve ideia de que ela desistiu.
Enfim... se ela fosse envenenar o sorvete .... tomara que fosse de passas ao RUM !
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