Acendo a vela para que possa ser
minha crença
a falsa confiança em um deus qualquer,
estou sem ídolos.
sem ícones, sem telefones, nem fogos de artifício.
Apenas caminho
provocando talvez
outro possível naufrágio
e me dedico a pensar
que esse enterro eterno de novas inventadas expectativas
é o sal grosso que limpa essa ferida
de estar sempre pulsando,
sempre me atirando
em precipícios alheios para perceber
que a profundidade dos outros
pode não precisar passar de um segundo.
Um raio de olhar passado sobre a mesa,
o tapa de uma palma lisa sobre a carne fresca,
o toque quente de dedos que se intimidam
dentro da minha boca e...
mais nada.
Estou cansada de estranhos.
Mas eu só quero mesmo estar. E perceber suavidades.
Permitir grosseirias educadas, safadezas pertencidas.
Eu quero ficar
pelo menos tempo suficiente para saber
se esses olhos que me cobiçam
ensaiam cegueiras ou planejam tempestades.
É pedaço de mim agora
ter descoberto que eu
posso ter mais do que isso.
Digamos que, mesmo sem ídolos,
eu não perdi a coragem de saltar.
Nunca houve um abismo meu
do qual eu não fosse capaz de regressar.
Caminho de volta pra casa.
Acendo então é o cigarro.
E no intervalo entre uma música e outra
a certeza
de que vão haver olhos melhores
para não precisar idolatrar.
A essência dessa dor é entender
que te sentir longe
faz parte do compartilhamento.
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