Tentou sair do dia. Ir para algum recanto da cabeça que servisse de resgate e sombra. E foi lá que viu ele de novo, fora e dentro dela, ele estava de novo escrevendo. Poucas palavras, disse ela, e ele já estava apertando o delete sobre as frases que agora iam embora. Mas as mãos dele continuavam ágeis em forjar assinaturas, e cada dia que passava, havia mais e mais fogueiras soprando seu bafo quente no peito dele que lia o que ela havia escrito com um ar certamente incrédulo de que uma mulher que assim se sentisse, mesmo que cheia de sfumatto, pudesse ser de fato confiável. Mas ela era confiável, e agora voltava a estar sendo, a cada dia mais surpresa. E os braços dele queriam apertá-la, mas ele não sabia mais exatamente como, e Caroline soltou um grito para que ele pudesse saltar em cima dela, como já estava há dias imaginando, mas que nunca ia comentar.
Ela estava a cada dia mais liberta dentro de tudo aquilo que nele a aprisionava.
E as mãos dele continuavam ágeis. Um pequeno vestido preto, coisa de festa básica, latas de cerveja que não conseguiam comprar, quem sabe um tanto de confiança de volta não fizesse mais mal do que o risco que ela correu de chegar a ele assim, de repente. Olhos muito pouco abertos, luzes da boate tooooodas acesas, mas a boca com hálito de algo mais fraco que bebida, repetia "mais forte mais forte" para as mordidas que tinham esquecido completamente a fraqueza diante da despedida com tantas e tamanhas boas propostas.
E assim ficou. E agora Caroline se apoiava na escada, de fato a resistência era mais fraca que seu braço, e ele entrava em seu corpo por trás de todas as intenções que um homem pode ter de possuir uma mulher ainda que ele não saiba o quanto que ele não sabe o tanto que ele deveria já saber que ele já a quer, mesmo para não assumir. E agora. Hora H de ir, Caroline sentia que gostava, gozava e sabia. Não havia sequer uma promessa não pensada. Ainda bem, disse ela.
Caroline era esperta, e tinha os olhos fechados em casa agora pra ah, enfim, quem sabe ignorar um pouco mais que sexos de uma noite só não eram mais necessariamente um assunto do qual ela entendia. "O que pode ser imaginado não precisa jamais ser perdido."*

*frase retirada do livro "A Trama da Maldade", Clive Barker
Gravura de Audrey Kawasaki
Um comentário:
olha só, o que você entendeu de meu "processo" ?
foi nada contigo, não
caramba.
a propósito, adorei esse seu texto, pra variar.
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