
Com uma expressão de certa descrença, Raíssa olhou bem para o pequeno papel amassado que segurava em frente ao rosto. Mais um endereço masculino de mensagens instantâneas virtuais anotado às pressas num fim de noite como qualquer outro, num bar menos especial ainda. O que aquele indivíduo em questão exatamente esperava tentando manter com ela um contato virtual após aquela noite de bebedeira doentia, ela não sabia ao certo imaginar. Porque hoje em dia as relações estavam tão vazias, tão líquidas, tão fugazes, que tudo, absolutamente tudo era possível. Raíssa era ainda bem jovem, mas ela gostava de sentir que em outras épocas anteriores à sua, todo esse caldeirão das relações humanas tinha sido um tanto quanto diferente. Pelo menos na sua mente de pseudo-poeta, ela imaginava que antes (sem precisar com exatidão quando) as pessoas pensavam melhor antes de se dizerem apaixonadas. Pelo menos na sua infância ela se lembra bem de que sexo era uma coisa muito séria. Ela se lembra bem do embaraço terrível que sua mãe sentia a cada pergunta desconfortável. Sobretudo no começo da adolescência, quando as perguntas se tornam mais coerentes. Ao invés de perguntar de onde afinal surgem os bebês, ela havia perguntado para a mãe qual era a diferença entre transar e fazer amor. Uma pergunta completamente descabida para o horário de café na frente da TV da sala. Mas porra, na sua cabecinha de virgem imaginativa, tinha de haver alguma diferença. Mâe, porque a revista da minha irmã diz que sexo oral no primeiro encontro é considerado de forma negativa por quase 87% dos homens? Eles não gostam de sexo oral então?
Pior ainda era esse tipo de pergunta. Não cabia. Sexo, minha filha, é coisa muito séria e tem que ser feita com muita responsabilidade.
Mas agora aquele papel amassado entre seus dedos. Não, não... se sexo era coisa séria, aquilo não podia ser verdade. Abriu a bolsa e retirou de lá de dentro mais outros 4 papeizinhos, todos igualmente amassados, parecia quase uma regra. Mas era apenas casualidade. Casualidade demais até, em excesso. Pensou em qual deles seria o primeiro a receber o telefonema ou a mensagem virtual mentirosamente tímida. Oi, tudo bem??? Foi legal te conhecer, vamos marcar alguma coisa pra essa semana. E desistiu. De todos. Nenhum papel amassado virando café da manhã na padaria da esquina de um bairro desconhecido qualquer. Raíssa sentiu que sexo poderia até não ser mais coisa séria, mas seu tempo era. Melhor comprar um café e sentar para ler.
Já na rua, rumo ao café, sentiu aquela náusea de novo. Havia outra razão para que nenhum daqueles rabiscos apressados feito com a caneta do barman virasse latinhas de cerveja a mais explodindo sua lixeira da cozinha. Havia uma lembrança maciça feito ouro velho encrustrada em sua cabeça. Bem, ela ainda não sabia se era mais na cabeça ou no corpo mesmo. Mas como sempre, seguiu andando, preferindo esperar. Algo dentro dela estava ultimamente também sempre amassado, e como se ela precisasse anotar o próprio telefone para que sua alma a ligasse e a encontrasse, e a resgatasse de um desses bares qualquer, ela resistia a telefonar para o dono daquela marca de ferro em brasa sobre sua pele. Se importar com os próprios sentimentos numa época como aquela poderia ser algo muito perigoso. E sentiu que ser sensível em meio a toda a farra de bundas, bíceps, frases decoradas e olhadinhas sensuais naqueles tempos tinha quase que a mesma conotação daqueles crimes intelectuais punidos pelas antigas ditaduras: não há nenhum lugar escrito que eles devam mesmo ser punidos, ou exatamente do que se trata um crime desses, mas... ninguém jamais sai ileso após cometê-lo. E tendo certeza de que ela apenas acordou um tanto mais excessiva do que de costume, chegando ao café pediu pela caixinha de fósforos e o cinzeiro. Manter intactos os hábitos de sempre costuma salvar temporariamente até o doente mental mais grave possível. E olhando com a repetida certa descrença para o outro lado da rua, antes de riscar o fogo lembrou-se de quem um dia lhe mostrou que cigarros acesos com fósforo ficam mesmo com um gosto esquisito dele. E concordou: de fato, sua alma em extinção naquele dia qualquer de dezembro, era de fato somente um poço de crenças falhas, esperanças iludidas e muita, muita saudade.
Conformou-se em ler. E assim foram todos esses dias, essa manhã, e todas as outras tardes.
Pior ainda era esse tipo de pergunta. Não cabia. Sexo, minha filha, é coisa muito séria e tem que ser feita com muita responsabilidade.
Mas agora aquele papel amassado entre seus dedos. Não, não... se sexo era coisa séria, aquilo não podia ser verdade. Abriu a bolsa e retirou de lá de dentro mais outros 4 papeizinhos, todos igualmente amassados, parecia quase uma regra. Mas era apenas casualidade. Casualidade demais até, em excesso. Pensou em qual deles seria o primeiro a receber o telefonema ou a mensagem virtual mentirosamente tímida. Oi, tudo bem??? Foi legal te conhecer, vamos marcar alguma coisa pra essa semana. E desistiu. De todos. Nenhum papel amassado virando café da manhã na padaria da esquina de um bairro desconhecido qualquer. Raíssa sentiu que sexo poderia até não ser mais coisa séria, mas seu tempo era. Melhor comprar um café e sentar para ler.
Já na rua, rumo ao café, sentiu aquela náusea de novo. Havia outra razão para que nenhum daqueles rabiscos apressados feito com a caneta do barman virasse latinhas de cerveja a mais explodindo sua lixeira da cozinha. Havia uma lembrança maciça feito ouro velho encrustrada em sua cabeça. Bem, ela ainda não sabia se era mais na cabeça ou no corpo mesmo. Mas como sempre, seguiu andando, preferindo esperar. Algo dentro dela estava ultimamente também sempre amassado, e como se ela precisasse anotar o próprio telefone para que sua alma a ligasse e a encontrasse, e a resgatasse de um desses bares qualquer, ela resistia a telefonar para o dono daquela marca de ferro em brasa sobre sua pele. Se importar com os próprios sentimentos numa época como aquela poderia ser algo muito perigoso. E sentiu que ser sensível em meio a toda a farra de bundas, bíceps, frases decoradas e olhadinhas sensuais naqueles tempos tinha quase que a mesma conotação daqueles crimes intelectuais punidos pelas antigas ditaduras: não há nenhum lugar escrito que eles devam mesmo ser punidos, ou exatamente do que se trata um crime desses, mas... ninguém jamais sai ileso após cometê-lo. E tendo certeza de que ela apenas acordou um tanto mais excessiva do que de costume, chegando ao café pediu pela caixinha de fósforos e o cinzeiro. Manter intactos os hábitos de sempre costuma salvar temporariamente até o doente mental mais grave possível. E olhando com a repetida certa descrença para o outro lado da rua, antes de riscar o fogo lembrou-se de quem um dia lhe mostrou que cigarros acesos com fósforo ficam mesmo com um gosto esquisito dele. E concordou: de fato, sua alma em extinção naquele dia qualquer de dezembro, era de fato somente um poço de crenças falhas, esperanças iludidas e muita, muita saudade.
Conformou-se em ler. E assim foram todos esses dias, essa manhã, e todas as outras tardes.
2 comentários:
Queria ligar pra ela! Mas nele havia uma indistinta confusão:Um homem nunca assume que tem sentimentos!será que de fato sente? Será que no coração de um macho pulsa algo mais que o sexo? Ele achava que sim! mas numa sociedade capitalista-burguesa-machista ter sentimentos é coisa de maricas.
Bernardo Reis
na mesa entre uma cerveja e outra os amigos queria saber se ela era gostosa, safada ou comedida.
Ele sem geito dizia que estava contente! Em palavras evasivas afirmava que a noite tinha sido boa. No entanto, estranhamente aquelas palavras eram pra ele mesmo! Era como se sentisse, como se quisesse diferenciar o Sexo do Amor que sentia, por ela. Porem seu espirírito tentatava convencê-lo que tudo era a mesma coisa!
Só me pergunto o quão Ricardo Reis é a recusa dele de amar, e o quão Bernardo Soares é a descrença dele no que sente!!!
Aliás, descrença porra nenhuma, ele sabe muito bem o que sente, só que... a pose é necessária, sobretudo quando se tem uma tão adorável postura e fama de mau... E quem sabe, no dia seguinte ao café ela não sente uma irremdiável coragem atroz, capaz de todas aquelas atitudes que sempre temos medo de fazer, e finalmente não dá o telefonema que ambos não conseguem mais???
A leveza pode ser por vezes insustentável, mas muitas vezes a omissão dói mais do que a possível recusa.
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