Tive um sono agitado. O sono dos que sentem culpa. O sono dos que sempre fazem mais coisas do que realmente dão conta, o sono dos que bebem vodka sem efeito, e em excesso. E tive os sonhos dos que podem ler. Daqueles que ainda se atormentam com os assombros do nazismo, e que ainda se inquietam com perguntas gregas antigas; sonhos de quem quase pôs os pés dentro de uma geleira em algum conflito sueco, e que tentou ver de perto a cor da neve russa, mas que acordou num buteco de beira de estrada venezuelana, e beijou na boca todas as prostitutas francesas de um delírio qualquer de Henry Miller. Resumindo, um sonho dentro do outro, mais pesadelo que alívio, para falar a verdade. Mas eu dormi. Dormi porque cansei de imaginar condições mais favoráveis. Por hora o que tenho para mudar é que apenas estou fumando em excesso e engolindo pouca raiva. Estou sufocando na fumaça, mas todo o resto vai para fora. Meu lixo são quilos e quilos de sacolinhas das quais eu mal posso dizer o que contêm. Eu acumulo coisas do lado de fora, como se a vida que tenho para viver de verdade fosse eternamente externa a mim. O que me resta dentro permanece intocado, eu seria capaz de fazer a mesma pergunta que fiz aos doze anos de idade, aos quinze, aos dezesseis. E sei que eu teria a mesma não-resposta. É o que permanece acobertado, como se nenhum homem jamais tivesse atravessado sequer a borda da minha resistência. Como se eu tivesse fingido a todo momento, mas eu não fingi. Por isso a falta de sono. Sinto uma bola de pêlos entalada na garganta, constantemente, sentindo-me como um general que acaba de enviar todo um batalhão de jovens soldados morrer em nome de crenças das quais ele já duvidava. Mas eu tinha que dar a ordem, para manter um padrão... que padrão? uma ordem de vida que eu preciso não perder, um status quo salva-vidas, porque o resto que vem é sempre a loucura. Mas eu sabia, eu sabia que a loucura viria. O estar só não permite que qualquer pessoa vista máscaras. Cada pequeno objeto, cada copo dágua, cada escova de dentes ou de cabelo, cada centímetro da parede se torna um espelho que mostra teu rosto sem maquiagem, mais feio do que as pessoas costumam ver, a pele oleosa de medo, a olheira cada vez mais funda, e friamente perguntando, perguntando: até quando, menoli, até quando?
4 comentários:
Lu, eu não tenho escrito, mas semprevenho aqui. sempre leio. e seus textossempre me fazem pensar. a carga de poeticidade atravessa todo meu corpo - e por vezes choro e sorrio ao mesmo tempo com tamanho dilaceramento de sentimentos.
eu te queria amiga bem pertinho de mim para descobrirmos os desvão juntas. ou só um bate papo naquele café de quem a xícara me faz lembrar sempre.
um beijo, mulher linda.
Milena falando assim...
salvas as devidasdiferenças,claro, mas sinto-me tão June, intensa, descabelada, frágil em sua enorme estrutura, e ela... tão Anaïs, pequenina de corpo e gigantesca nas palavras, longe demais na sua tbm grande e mais distante ainda de meu caos... ela numa ordem que a gente só sabe ser apenas por fora quando já está dentro do redemoinho...
beijos, mi, obrigada, obrigada!
como se a vida que tenho para viver de verdade fosse eternamente externa a mim..
que diabo de coisa, né?
Você é fantástico...e disse coisas que meu coração duvidava...
VOcê é mais uma dessa classe de gente que escreve com sangue cardíaco e alma indefinida...
Adorei.
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