E o Reveillon chega pra me provar que alguma coisa não vai bem no reino da Dinamarca.
Vejo fantasmas muito familiares, e isso aqui não é o início do 1º Ato de Hamlet. Escuto jazz e músicas sombrias, tenho ouvido vozes. E elas falam comigo. Regina Spektor insiste em dizer que ela pode cantar de forma tão soturna que eu vou chorar, não importa o que eu faça. "Litte wet tears on my baby's sholder... Lady lights a cigarette, puffs away no regret, takes a look around, no regrets, no regrets..." Será?
Enquanto isso, Shan Marshal enrola sua adorável língua nos meus ouvidos. Digo para ela parar, isso faz uma cosquinha tremenda e eu posso começar a querer coisas que vão além da presença de uma voz. Mas ela me acalma. Diz que quer apenas ser resgatada ao meu lado por uma criança que tenha visto coisas inacreditáveis... In a cross bones style. E já que ela anda tão boazinha, decido fazer à ela outro pedido. Acendo um cigarro, mais uma vez, e passo pra ela. Agora posso dizer. "Lower me down, pin me up, secure the grounds, for the later parade..." Quem sabe. Eu tenho visto coisas adoráveis.
Nesse estágio do fim de ano, pra ser sincera, eu estou tendo até alucinações já. Ando vendo sincronicidades. E papéis de parede que não existem. Alías, as próprias paredes não existem. Visto um suéter mesmo ainda não estando frio. Apesar do calor, minha garganta está inflamada de tantas conversas que me envolvem e jogam-me em um espaço/tempo do qual desconheço as causas e as consequÊncias. Palavras são cheques assinados, com o valor em branco. Quero parar de lançar cheques sem fundo ao mundo. Quero sentir o agasalho de uns braços que não me pertencem, pois os braços amados nunca estão em nossas posses, eu presumo. Ou quero que o relógio só gire suas antenas teleguiadas quando eu permitir. Que a lógica natural das coisas passe a desligar o telefone na minha cara. Na cara, na cara... Cara dura. Pedra sabão. Quem sabe meus próprios braços poderão ser meus novamente?
Olho para o relógio. A conversa começou quase duas da manhã. Mas já passou das 04:00.
Já falei mais de um milhão de vezes para o Scott Walker sair de trás das almofadas, não adianta mais ele disfarçar, eu sei que ele está ali. Daí ele fica um pouco aflito com minha falta de paciência, mas solta um sorrizinho de canto de boca. Ai não, ele vai cantar. Sim, ele canta, mais uma vez. E eu sou pega no flagra. "Hope for me, I hope for you,we're snowdrops falling through the night..." Eu chamo ele de monstro. De chato, de bobo, de feio, de alaranjado. Sim, alaranjado. Da mesma cor do telefone das certezas. Inexistente. Mas ele triunfante quer me ignorar, e não solta o meu braço antes de dizer "children aren't afraid to love and laugh when life amuses them". Quero matá-lo.
Lembro-me da criança que teria de ter resgatado a mim e todo o meu poder felino no instante em que Jonh Coltrane ameaçou entrar no quarto. Mas ela não aparece. Essa criança se recusa a ser minha criada. Não toma contornos definidos. Sigo a trajetória de seus passos e acabo me enrolando como se fosse a linha azul do videoclipe de Camille. De fato, essa criança não veio aqui esta noite. Camille me lembra, através de mensagens, que estou mesmo tendo alucinações.
Não interessa isso mais. Joanna Newson continua me telefonando, insiste que meu nome será Emily nessa madrugada. Mas nesta noite não, eu digo. Esta noite eu não quero ser Emily. Quero ser Anaïs Nin. E provar pra mim mesma e para o mundo que não necessito das culpas, elas estão atrasadas demais dentro das cabeças de pessoas que apenas não merecem estar no meu convívio.
Vou mandar uma mensagem para Milena que mora em sampa, quem sabe. Ela não é uma cantora de jazz ou músicas indie, mas sabe que o amor nao foi feito para seguir uma trilha pré-determinada. Milena está ouvindo Johnny Hartman. John Coltrane conseguiu arrombar a porta. Cruzo os meus braços. Meu cachorro voltou do médico. Está com tendinite. Alguém nessa casa pelo menos tinha que ter um problema real. "A week in Paris could ease the bite of it. I'll live a lush life in some small dive".
É, ainda é cedo. O dia mal começou a despontar pela janela. Nem deu a hora ainda de comprar pão. Vou esperar, com a xícara de café tão acesa quanto eu mesma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário