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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Será que podemos roubar postagens dos blogs de quem amamos?

"As teclas pretas do meu teclado tornaram-se cinza, tamanha espera. Fumaça embaçando o monitor e o quarto. Embaça os olhos, os pulmões, o coração. Embaçam minhas retinas tontas e habitadas. Roubo palavras alheias e imagens que não são minhas, ladrão que rouba flores do jardim vizinho. Essa fumaça que me ronda tem mais cor que a minha invisibilidade. A invisibilidade da espera. À espera de uma rara e fortuita visita."

"Há fios de cabelo sobre o carpete, um vestido vermelho na cozinha, uma borboleta de óculos pousada na porta da geladeira.Ele olha mais uma vez para a foto sobre o piano, para a cortina branca na janela da sala... e recomeça a escrever a carta, balbuciando em voz baixa, sorriso no canto da boca: 'Ah, minha romântica senhora Tentação...'"

Quero acreditar que Natalie tenha escrito isso... hehe. Mas deve mesmo ter sido Jesse.

E fico a pensar no que move os amantes. Por que, antes de sermos feridos mortalmente não conseguimos aprender a lição. As pessoas costumam dar sinais. Será que eu comecei a dar os meus? Na última noite houve uma conversa especial na qual um amigo me contou todo o seu relato sobre ter aprendido a gostar de jazz justamente depois de ter sido abandonado pela namorada que era fã justamente desse estilo. Vi a cena toda, enquanto ele contava, de sua cara bonita entrando na loja de vinis (sim, isso ainda foi na época dos vinis) com os olhos baixos, a ansiedade para ir embora curtir aquela fossa. Mas não, antes ele comprou o Lp, duplo, da Ella Fitzgerald.Isso foi apenas o prelúdio de uma busca musical que começava, substituindo naquele instante, talvez, uma busca amorosa que seria infundada. E ele ainda guarda esse vinil. Muito embora tenha também adquirido, após todos esses anos, a mesma coleção em cd. Teria ele aprendido a lição?
Qual lição? Eu me pergunto. A lição de que todo envolvimento deveria vir com sinais de trânsito acesos, faróis sempre ligados, cinto de segurança e, de preferência, um guarda que nos avisasse quando parar e quando seguir adiante. Algo ou alguém que nos mostrasse simplesmente: pare, seu estúpido, não vê que o sinal já está amarelo?
Mas insistimos em nos enforcar com a corda que colocamos na mão do outro pelo puro e corriqueiro prazer de ser abandonado. Sim, pois é uma espécie de prazer. Ver nossa cara amassada diante do espelho, noites e noites chorando. Tardes chorando com as mãos apoiadas na pia, bem na hora de fazer o café. Ficar sem comer. Desgastar tudo o que podemos desgastar daquela paranóia já tão antiquada. E parar. Sim, parar. Chega um momento em que nos cansamos da estética da bela tristeza e partimos para a vida propriamente dita novamente. E dessa vez, por ironia do destino, costumamos diminuir as demonstrações de afeto, julgando estarmos em estado de auto-preservação após o tombo. Com isso, perdemos a lição mais uma vez. Lembra do guarda? Dessa vez ele acena: imbecil, o sinal estava verde. Estava. Agora pode chorar baldes de novo. Mãos na pia, por favor.

A lição então é mesmo que não há droga de lição nenhuma. Eu achei que ja havia aprendido muita coisa até a noite de ontem e a tarde de hoje. Descobri que sei muito pouco sobre o sabor que carrego comigo. Acho que meu sinal está estragado. Ele brilha vermelho sendo que sinto verde. Não aprender a lição porra nenhuma é afinal, a grande graça da vida.

Um comentário:

Bee Box disse...

procurando recuperar o fôlego depois de ler. ufa!