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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Um Natal que seja mais do que um Natal

Ano passado, perto das festas de virada de ano, eu comprei uma dessas botas natalinas de pano. Muito vermelha e muito linda, fios dourados perpassavam todo o seu comprimento que não devia ser muito mais do que uns 30 cm. Era uma bela botinha, dessas que os norte-americanos costumam pendurar no beiral de suas lareiras, para depositar pequenos presentes ou pedidos.
No caso da minha família aqui presente, foram pedidos. Não sei bem porque comprei essa bota. Era cara, muito cara até para o pouco dinheiro que eu dispunha naquela época. Mas meus olhos se encheram de algum tipo de esperança vazia que eu alimentei naqueles fios dourados sobre um pano aveludado vermelho.
Cheguei em casa, pus luzes pisca-pisca nas paredes, acendi incensos e velas, fiz com que minha mãe se animasse a preparar alguma coisa na cozinha. Tudo que pudesse fazer com que esquecêssemos, nem que fosse por alguns segundos, a ausência dolorosa de uma irmã que havia partido há menos de três anos. Sem desejar possuir de fato um conhecimento de causa sobre o assunto, nossa mente não deixa de questionar se estaria ou não sendo visto cada um dos nossos atos naquele jantar de 24 de dezembro.
Dois visitantes acompanhavam minha pequena e reduzida família, que agora era apenas eu e meus pais. Dias muito difíceis, palavras mais impossíveis ainda de sair, tive essa idéia dos pedidos dentro da bota. Não foi nenhuma idéia assim que me fez compra-la mas, lá estava ela, silenciosa sob a luz dos piscas-piscas, um pouco exagerada até em comparação com a simplicidade do resto.
Todos depositaram, a meu pedido, seus pequenos papéis dentro da botinha, sem dizer nenhuma palavra. Foi o momento mais sincero da noite. Eu experimentava um vinho sem álcool. Estava tratando de depressão e não podia ingerir bebidas alcoólicas. Meu namorado na época e meu cunhado assistiam a tudo cúmplices de uma dor que não era a deles. E os diminutos bilhetes foram todos escritos com caneta vermelha também. Eu e minhas manias de perfeição. Uma a uma, as mãos respeitosas entravam dentro da maciez da botinha para depositar ali suas parcelas ínfimas de esperança.
Passou-se um ano. O namoro acabou, a amizade com o ex-cunhado não, eu engordei uns dez quilos, voltei a beber, meu pai parou. Mas minha mãe continua olhando oblíqua pela janela quebrada do seu quarto, como se quisesse ver, sobretudo nessa época, minha irmã voltar da grande viagem e nos dar um abraço de quebrar costelas e ganhar umas palmadas por ter sumido tanto tempo. Resolvi abrir a bota. Naquele ano fora feito um pacto de só revelar o conteúdo dos bilhetes no Natal do ano seguinte. Ainda estamos no dia 21, mas hoje o dia estava tão triste e fechado, chuvoso, que resolvi abrir. Quem sabe um pouco de esperança vencida não pudesse melhorar um pouco as coisas.
Meu pai queria uma casa própria. Uma casa própria! Justo ele que nunca havia poupado em toda a sua vida um centavo sequer para tal feito. As esperanças vencidas falavam mais do que as pessoas gostariam de falar. Eu desejei amor em todos os sentidos. Creio ter conquistado. Luciano desejava paz e amadurecimento para o nosso namoro. É, ele não obteve sucesso. Fabiano, estranhamente, pedia por união na família e suporte para a nova fase da sua vida. Ele sim, resumiu todos os nossos desejos mais secretos. Minha mãe, humildemente, apenas pediu que minha irmã pudesse sentir o beijo que ela lhe oferecia todas as noites. E ao ler tudo isso eu só pude sentir como as datas fazem com que quem já está longe pareça estar ainda mais ausente.
Ofusquei meus olhos num choro que não quis sair, e guardei de novo todos os bilhetes dentro da bota. Não, ainda não era a hora de revelá-los. Que eles ficassem ali, pelo menos mais um ano, ou até que todo mundo fosse atendido. Os pequenos milagres ainda não aconteceram, e isso não me pareceu justo. Não, não é justo.
Esse ano, apenas eu vou depositar um pedido na bota. Fui a única a ser atendida no ano anterior. Mas o que vou colocar é segredo, e só vou revelar ele pra você, que me acompanhou até aqui. Vou pedir... exatamente a mesma coisa. Sim, a mesma coisa: amor em todos os sentidos. Não vejo nada na vida humana que mais pudesse me satisfazer agora. Não desejo pedir que eu não morra num acidente de avião. Ou que eu perca os vinte quilos acumulados. Ou que aquele apartamento que quero comprar com meu novo e definitivo amor realmente saia. Ou que minha irmã volte...
Quero pedir apenas que os sonhos sejam longos, que novas valsas sejam sempre cantadas, que gatos e cachorros comam junto com a gente, que a lâmpada da sala queime numa tarde de chuva, que você perca o ônibus e seja obrigado a andar sob as árvores, que a conta não seja paga e você conheça alguém na fila da loteria, que aquele jornal publique uma foto nossa, que a novela acabe antes do tempo, que aquela atriz na qual ninguém acreditava vire uma grande diva, que a Angelina Jolie adote um menino brasileiro e que o Brad Pitt a abandone e volte para a Jennifer Aniston. Falando nisso, que o seriado Friends volte a ser filmado e que os filmes franceses tenham ingresso gratuito. E ah, que as pipocas sejam cortesia nas salas e que os professores deixem as crianças assistirem as aulas de boné e com seus chicletes na boca.
Não posso deixar de pedir também que a harpa de Joanna Newson continue afinada e que minha poesia nunca perca a lâmina. Que o Cássio conheça a sua alma gêmea e o Ricardo não se sinta mais sozinho. Que a Rússia saia da recessão e que George Bush perca todos os dentes e adoeça gravemente. Que a Priscila continue maravilhosa como ela é. Que a Milena seja doutora e ganhe férias com tudo pago no final. Que a China pare de fabricar porcarias. E que o Valber volte a sorrir como menino paraibano que sempre foi. Enfim, que o Wally tenha o melhor natal da sua vida, que a Bertha tome jeito e o Leandro e o Daniel possam acordar tarde todos os dias do ano, ganhando o mesmo dinheiro. Que o Junior se case em Porto Alegre. Que eu me case em Porto Alegre.Que as chuvas nunca sejam enchentes e que não haja terremotos fatais. Que o dinheiro sempre dê para comprar cds e livros e que o Felipe, o Vandson e o Pedro sejam meus amigos para sempre.
Tudo isso é uma coisa só: amor em todos os sentidos.
E que o meu olhar não se perca nas tulipas.
E que o André saiba que o deixei para o final por uma questão simples: o melhor sempre deixo para o fim. Que você perca aquele avião. Eu vou estar no próximo vôo. Não dançarei Nina Simone, talvez. Mas vou cantar Such a Commom Bird fazendo caretinhas. Risos. E beijos. E luzes coloridas e colchão na sala para sempre. Um Natal que seja mais do que um Natal. Para todos.
Este ano, a botinha vermelha ainda tem uma longa missão a cumprir.

6 comentários:

Unknown disse...

A MINHA VONTADE AGORA E LHE DAR UM GRANDE E DEMORADO ABRAÇO BEM APERTADINHO E DIZER TBM QUE DE UMA CERTA FORMA TENHO MINHAS BOTAS...
TENHO MEUS DESEJOS INESPLICAVEIS E IMPOSSIVEIS. MAS...
TENHO TBM A CERTEZA DE MUITAS COISAS BOAS COMO A POSSIBILIDADE DE ME CASAR EM POA.!
COMO TENHO.
OBRIGHADO MINHA DOCE AMIGA, ESTAREI SEMPRE PERTO DE TI.
BJO GURIA!

enten katsudatsu disse...

Querida,

Estou chorando...

Lágrimas caem como chuva e sei que 2008 vai ser nosso, seu e do seu namorado, nosso no sentido de transformação. Estou chorando... Seu texto me bateu! Bateu na minha alma. Sabe, que o mundo tenha AMOR. Através desse AMOR ALTRUÍSTA E FRATERNAL, independente de filosofia ou religião para que a humanidade possa se rever, se retratar, que o homem seja mais homem e não omen.
Abri hoje seu texto e ainda há lágrimas na minha face. Te desejo TUDO DE BOM DO MUNDO, TUDO QUE O CÓSMICO POSSA TE DAR. MUITA LUZ, SAÚDE, PROSPERIDADE E PAZ. Eu e Ricardo gostamos muito de ti.
Beijabraços, MUITA LUZ E SAÚDE.
Cássio Amaral.

Elenita Rodrigues disse...

"E ao ler tudo isso eu só pude sentir como as datas fazem com que quem já está longe pareça estar ainda mais ausente."

Seu texto é.....


*
*
*

(Meu rosto repleto de lágrimas.)

Sentimentos, tantos sentimentos....



Feliz por ter me trazido até aqui.

Arte e artesanato em Minas disse...

É tão imageticamente forte.Tão cheio de sentimentos e repleto de verdades íntimas, teus segredos pesoais, teus desejos retidos e as vontades não ditas são tocantes e dizem muito de todos nós e de de como nossas vontades nem sempre são passíveis de serem realmente vividas.
Eu também queria muito voltar a inocência perdida, ao meu cheiro e minha cor paraibana, mais eu queria mais, queria ter o tempo e meus queridos perdidos nele ao meu lado novamente,isso não acontecerá.
Se puder pedir algo, peço que teus e meus desejos caminhem na paralela da vida e nossas vontades continuem numa espiral crescente para nosso infinito particular.
Grande beijo, sempre seu!

Anônimo disse...

... Só tenho uma frase, "ainda temos asas"
BjoS

Fabiano Rabelo disse...

é estranho pensar em família... que o proxímo ano essa frase seja só uma mentira mau contada