
Os sapatos que quero comprar. A camisola que ele me deu. O lápis com o qual fiz a prova do vestibular. Os cds esparramados sobre o móvel do computador. O computador. O dia todo esperando mensagens de alguém. A ausência de uma vela que queimasse de verdade. Um incenso aceso.
Roupas de dança esquecidas, figurinos rasgados, textos e mais textos, de cenas e mais cenas, que nunca mais vão se repetir. Nem deveriam se repetir. Apenas seria bom, em algum momento, relembrar... que um dia... eu achei... que tivesse talento.
Minha voz que sempre sonhou em cantar, mas que agora falha. O mundo esmagando as pessoas lá fora. Persianas que não existem mais. Cafés fechados. Lembranças se despindo. Vozes de cão indo embora.
O banho que tomarei daqui a pouco. A dor nos meus braços ao escrever este texto. Minha saudade dissecada em pedaços. A autópsia cruel que a vida me tem feito. A nostalgia de encantos que não quero acreditar perdidos. O magnetismo do que começo a me assumir como sendo.
O beijo que eu preferia não ter dado aquela noite. Teus olhos me reprovando, me olhando do canto escuro da cena. As palavras, cheques em branco, voltando todas, e cobrando as promessas vazias que fiz nos meus ouvidos. Gente, eu já sofri de taquicardia, um dia. Sou uma pessoa incapaz de mentir. Apenas fantasio por demais... coisas que apenas... começaram a existir.
Um sorriso de alívio quer tomar conta dos meus lábios. Prometo não sofrer mais. Um cd do Hole. Minha irmã que o trouxe dos Estados Unidos. Ah, os Estados Unidos. Eles podiam ter caído na minha prova, no lugar da abolição da escravatura. Minha irmã e sua repentina partida poderiam ter sido tema de prova. Outra prova, ainda menos pesada... e/ou definitiva. Ah, os Estados. Afinal, nunca conseguimos ficar livre deles.
Os cabelos loiros daquela menina. Como eu queria ter aqueles cabelos e saber o que é acordar um dia desses qualquer e não se sentir sempre uma desgraça. O vapor já toma conta da parede do meu quarto. E todas essas imagens somam-se. Tenho vontade de soltar as unhas. Arranhar costas masculinas. Mas não. Apenas vou... solfejar cansaços. E parir eletricidade pura. Transmito raios. Minha poesia é rouca. Cortei meus olhos com ela. E o corte... não tem sido nada doce.
2 comentários:
sua poesia nua e crua, rouca e louca. eletricidade na alma arranhada, cortada por cada verso. minha alma é masoquista. e sente-se feliz por isso.
“Abri a boca. A geléia já tinha embebido longamente o pão, tanto que ela não escorria mais em veios vermelhos, mas impregnava as bolas densas do miolo com manchas rosadas”.
Natalie Quintane
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