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"Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te" (Hilda Hilst - "Da Morte - odes mínimas")

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008


Saí às ruas.
Choviam pântanos,
caíam pegadas,
avenidas movimentadas
sobrevoavam a ossatura dos dias.
Passei a duvidar
até da escultura partida daquele beijo.
Fiquei com medo.
Achei que a fumaça do cigarro
começava a apertar demais a minha garganta,
muitas dívidas, poucas contas.
Eu quis ir embora.
E no intuito de achar a placa
sinalizando "ah, ossos do ofício",
um barril de fermento e pólvora
estourou dentro do meu ventre.
Mas não.
Eu não quis abrir as portas.
Não ainda.
Por mim, já estava ventando em excesso
no pequeno espaço contido das minhas veredas.
Voltei às esquinas,
comprei cachorradas, vomitei velas,
pari sombrinhas.
O céu continuava a desabar
minhas falsas vitórias.
Garrafas dando-me tapas,
mesas de bar consolando os hematomas.
De uma vez por todas, afinal,
onde, diabos, estava mesmo a minha casa?
Na força bruta assumi a causa dos dias,
conversei com a noite
e a convenci a ficar nos olhando
ao invés de me acordar por qualquer coisa.
Mas os livros não lidos continuavam me assaltando.
Já sei.
Roubarei janelas.
Quem sabe com asas de salto agulha eu não consiga
sair mergulhando e esquecendo
a obviedade mórbida e obscura
que reside em cada simples coisa.

(gravura de Mike Worral)

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